Fico muitíssimo indignada quando uma mulher é assediada ou abusada e a primeira coisa que perguntam é sobre a roupa que usava. Eu nunca usei roupas curtíssimas ou decotadérrimas e fui assediada na rua muitas vezes. Não uso roupas curtas porque me sinto desconfortável, porque gosto de sentar no chão, de dobrar as pernas. Mas mesmo com roupas "bem comportadas" sofri assédio.
Teve uma época, quando tinha meus 10 ou 11 anos que tinha medo de ir até o bar da esquina porque tinha um homem que me perseguia. Ele me seguia de bicicleta dizendo um monte de besteiras, falando que queria fazer isto e aquilo, coisas que com dez anos eu não fazia ideia do que se tratava, mas que sabia que não queria aquela coisa asquerosa tocando em mim. Várias vezes eu corri pra casa, pois ele andava sempre de bicicleta. Eu sentia muito medo! Isto aconteceu até um dia que entrei em casa correndo e chorando e meu pai saiu atrás dele e o confrontou.
Naquele momento eu temi por mim e pelo meu pai. Graças a Deus não aconteceu nada e aquele nojento parou de me perseguir.
Mas não fiquei imune a piadas na rua, barulhos de chupão e outras coisas mais. Uma vez eu estava esperando o ônibus, pelas sete horas da manhã, na esquina da minha casa, onde tinha dois bares, mas estavam fechados e um cidadão, já com seus 40 anos e que vivia de fazer pequenos trabalhos de capina nas casas ali da volta resolveu se mostrar. Desceu da bicicleta, encostou-a no muro do bar e veio pra cima de mim com as calças arriadas e balançando seu pênis. Não sei como consegui reagir tão rápido! Deu uma surra de sombrinha no tarado! Bati nele com muita raiva! Tanta que quebrei a sombrinha e ele fugiu correndo! Depois disso pensei no quão arriscado tinha sido minha atitude e que ele poderia ter reagido, me batido e sei lá mais o que. Voltei pra casa tremendo que nem vara verde! Com as pernas bambas e chorando! Nunca mais aquela criatura se quer olhou pra mim, se me via na rua mudava o rumo. Mas ele poderia ter agido diferente e tentado fazer algo comigo novamente não é? E não era porque eu estava de mini ou micro saia, porque nunca usei nada muito acima do joelho. Não era porque eu estava de short curto ou blusa decotada ou transparente. Foi porque eu sou mulher e eles acreditam que mulheres estão aí pra isso.
Eu até acho bom que se use uniforme nas escolas e no trabalho, economizam nossas rouptchas! Mas optar por isso porque guris adolescentes não sabem respeitar as colegas é no mínimo absurdo. E mais absurdo é ouvir da responsável pelo SOE (nem sei se existe isto ainda) que as meninas devem usar "roupas comportadas e que se os guris derem piadas ou passarem a mão ela não tem nada o que fazer!" É acreditem já ouvi mais de uma vez o mesmo argumento no Dom João Braga (escola péssima, aliás) . E de mais de uma pessoa.
Outro dia um pai reagiu ao argumento dizendo que eles deveriam fazer os guris respeitar e não fazer as gurias andarem tapadas. Isso me deu uma pontinha de esperança e pensei, nem tudo tá perdido!
Mas ainda que sejamos maioria, ainda somos vítimas destes abusos.
Contos de todo o tipo, historinhas da vida real, crônicas do cotidiano, contos, sonhos e desejos, todos mudando conforme as fases da lua.
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terça-feira, 10 de março de 2015
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Descriminalização do aborto
Eu já disse algumas vezes, já escrevi inclusive, sobre o que penso sobre o aborto. Primeiro ponto, da situação em que me encontro, dentro da religião que professo e sigo, dentro da minha forma de pensar, hoje, não faria um aborto. Segundo ponto, creio que prevenir uma gravidez seja mais fácil do que o trauma e as consequências de interromper uma gestação. No entanto, penso assim por ter tido esclarecimentos sobre planejamento familiar. Também tem a possibilidade de ter o bebê e dar pra adoção, visto que existem muitos casais que querem cumprir o papel de pai e mãe. Como eu disse, é o meu pensamento.
Outras mulheres não pensam ou mesmo sabem ou estão preparadas para optar por algum dos pontos acima. Isto varia de pessoa para pessoa. Mas a questão da descriminalização do aborto não é uma questão moral ou religiosa, é sim uma questão de saúde pública. Neste momento de campanha política poucos são os candidatos que se colocam a favor deste tema, sendo os que sei serem a favor são Eduardo Jorge e Luciana Genro. E este ponto é importante, tendo três candidatas a presidência, apenas uma se coloca a favor do aborto legalizado. Quero esclarecer porque digo que a opção pela legalização do aborto não é uma questão moral ou religiosa. É porque antes de mais nada nascemos com o livre arbítrio, um direito inalienável de escolher o que nos parece melhor nesta caminhada. Sou espírita, sei que cada gestação é a oportunidade de um espírito reencarnar, mas sei também que cada um destes espíritos (mãe e filho) tem o direito de escolha. E cabe somente a eles mesmos julgar o que creem ser o melhor. Não podemos interferir e obrigar uma mulher dar a luz um filho fruto de uma violência como o estupro. Não podemos dizer que apenas a mulher é responsável por uma gravidez.
É uma questão polêmica que será discutida e debatida por vários viés. Mas o mais importante, muitas vezes é posto de lado, sendo exaltados a questão moral e religiosa. O fato é que a proibição do aborto não impede que clínicas clandestinas de alto nível e de fundo de quintal sejam abertas e atuem interrompendo gestações e matando mulheres. Só nos últimos 15 dias soubemos de dois casos de mulheres que morreram durante o procedimento e seus corpos foram desovados. A imprensa, infelizmente reza pela cartilha do sensacionalismo e muitas vezes ao invés de ajudar no esclarecimento causa mais preconceito. Quando uma mulher desaparece após o procedimento de aborto ela não aparece como vítima de um procedimento mal sucedido, mas sim o crime de aborto é que é destacado. É neste momento que a imprensa deveria cumprir seu papel de informar e entrevistar médicos falando que a descriminalização do aborto é sim um caso de saúde pública, visto que procedimentos como este aparecem nos prontos socorros do SUS em grande número. Isto quando a mulher sobrevive as precárias condições das clínicas clandestinas e não vai parar no IML.
A legalização do aborto não vai aumentar o número de abortos realizados, apenas vai contabilizar o número correto. Apenas vai evitar que mulheres pobres e sem condições sejam vítimas de gente inescrupulosa que joga corpos no terreno baldio como se ninguém se importasse com aquela vida.
Eu sei, eu também acho que é mais fácil evitar a gravidez e é justamente por isto que digo que legalizar não vai aumentar o número de procedimentos feitos. Nenhuma mulher vai engravidar propositalmente SÓ para fazer um aborto, que é um procedimento traumático física e psicologicamente. Ou alguma vez passou pela tua cabeça que uma mulher decide assim... do nada... super de boa... tipo... hoje vou fazer um aborto só pra ver qualé que é?
Acredito que, mesmo uma mulher que nunca tenha pensado ser mãe numa situação como esta vai pensar muito a respeito. É uma decisão difícil e optar por botar todas as economias ou pedir um empréstimo (porque aborto ilegal é caro!) neste procedimento deve ser a parte mais fácil da decisão. Porque existe culpa, existe medo dos riscos, existe o quanto uma decisão desta deve fazer com que a mulher se sinta sozinha. E existe toda uma sociedade que vai julgá-la e culpá-la pela decisão de não ter um filho fazendo o aborto, ou pela decisão contrária.
Outras mulheres não pensam ou mesmo sabem ou estão preparadas para optar por algum dos pontos acima. Isto varia de pessoa para pessoa. Mas a questão da descriminalização do aborto não é uma questão moral ou religiosa, é sim uma questão de saúde pública. Neste momento de campanha política poucos são os candidatos que se colocam a favor deste tema, sendo os que sei serem a favor são Eduardo Jorge e Luciana Genro. E este ponto é importante, tendo três candidatas a presidência, apenas uma se coloca a favor do aborto legalizado. Quero esclarecer porque digo que a opção pela legalização do aborto não é uma questão moral ou religiosa. É porque antes de mais nada nascemos com o livre arbítrio, um direito inalienável de escolher o que nos parece melhor nesta caminhada. Sou espírita, sei que cada gestação é a oportunidade de um espírito reencarnar, mas sei também que cada um destes espíritos (mãe e filho) tem o direito de escolha. E cabe somente a eles mesmos julgar o que creem ser o melhor. Não podemos interferir e obrigar uma mulher dar a luz um filho fruto de uma violência como o estupro. Não podemos dizer que apenas a mulher é responsável por uma gravidez.
É uma questão polêmica que será discutida e debatida por vários viés. Mas o mais importante, muitas vezes é posto de lado, sendo exaltados a questão moral e religiosa. O fato é que a proibição do aborto não impede que clínicas clandestinas de alto nível e de fundo de quintal sejam abertas e atuem interrompendo gestações e matando mulheres. Só nos últimos 15 dias soubemos de dois casos de mulheres que morreram durante o procedimento e seus corpos foram desovados. A imprensa, infelizmente reza pela cartilha do sensacionalismo e muitas vezes ao invés de ajudar no esclarecimento causa mais preconceito. Quando uma mulher desaparece após o procedimento de aborto ela não aparece como vítima de um procedimento mal sucedido, mas sim o crime de aborto é que é destacado. É neste momento que a imprensa deveria cumprir seu papel de informar e entrevistar médicos falando que a descriminalização do aborto é sim um caso de saúde pública, visto que procedimentos como este aparecem nos prontos socorros do SUS em grande número. Isto quando a mulher sobrevive as precárias condições das clínicas clandestinas e não vai parar no IML.
A legalização do aborto não vai aumentar o número de abortos realizados, apenas vai contabilizar o número correto. Apenas vai evitar que mulheres pobres e sem condições sejam vítimas de gente inescrupulosa que joga corpos no terreno baldio como se ninguém se importasse com aquela vida.
Eu sei, eu também acho que é mais fácil evitar a gravidez e é justamente por isto que digo que legalizar não vai aumentar o número de procedimentos feitos. Nenhuma mulher vai engravidar propositalmente SÓ para fazer um aborto, que é um procedimento traumático física e psicologicamente. Ou alguma vez passou pela tua cabeça que uma mulher decide assim... do nada... super de boa... tipo... hoje vou fazer um aborto só pra ver qualé que é?
Acredito que, mesmo uma mulher que nunca tenha pensado ser mãe numa situação como esta vai pensar muito a respeito. É uma decisão difícil e optar por botar todas as economias ou pedir um empréstimo (porque aborto ilegal é caro!) neste procedimento deve ser a parte mais fácil da decisão. Porque existe culpa, existe medo dos riscos, existe o quanto uma decisão desta deve fazer com que a mulher se sinta sozinha. E existe toda uma sociedade que vai julgá-la e culpá-la pela decisão de não ter um filho fazendo o aborto, ou pela decisão contrária.
sexta-feira, 8 de março de 2013
sábado, 4 de dezembro de 2010
"Elas gostam de apanhar" dizia Nelson Rodrigues
Um dos meus autores favoritos é o Nelson Rodrigues, alguns que me conhecem já sabem disso, claro. Assim como aqueles que me conhecem pelo meu jeito contestador e revoltado com o machismo e os preconceitos me dizem, tu gostas de Nelson Rodrigues? Como?
Eu explico, gosto do que ele escreveu na vida como ela é, gosto das personagens e dos temas que ele trata. É certo de que ele era moralista, que tinha alguns preconceitos e era machista, como não ser naquela época? Mais perguntas eles me fazem quando lembram da expressão: "toda mulher gosta de apanhar". Completando o questionamento com a perguntinha cretina, Tu gostas de apanhar? Sempre respondo, a verdade é que ele disse "nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais". E eu sou, assumidamente, ANORMAL!
A verdade é que quando ele falava assim se referia a uma questão sexual. Nelson Rodrigues falava da mulher reprimida que quando podia liberava tudo, geralmente na cama. Quanto a isto cabe aqui a frase "ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível".
Mas o fato que realmente me levou a escrever este texto é aquela velha questão do tal "um tapinha não dói". Sei que quando Nelson Rodrigues se referia as mulheres que gostam de apanhar, esta fala tinha uma conotação sexual, induz a pensar que este gosto seja para a cama. Como anormal que sou, digo logo que não aceito tapas ou coisa que o valha nem no quarto, quanto mais noutro lugar da casa. Mas conheço sim mulheres que admitem gostar de apanhar na hora H.
Numa época em que cada vez mais seja necessário criar campanhas para defender e lutar pelo #FimDaViolênciaContraMulher acabo pensando que aceitar um tapa na hora h é admitir que outros tapas possam acontecer noutros momentos. Desta vez eu concordo com o Nelson Rodrigues, quando ele diz que "o homem começou a própria desumanização quando separou o sexo do amor".
Como saber o limite que separa o tapinha da hora H do empurrão na cozinha? Há como distinguir?
Na minha opinião não dá, pra mim um tapa é um ato de violência, independente do momento. Por isto continuarei sempre fã do Nelson, acho que ele é um ótimo escritor e conhecia a alma humana e continuarei lutando pelo #FimDaViolênciaContraMulher! E com certeza isto não é contradição! "Elas gostam de apanhar", mas eu não!
Eu explico, gosto do que ele escreveu na vida como ela é, gosto das personagens e dos temas que ele trata. É certo de que ele era moralista, que tinha alguns preconceitos e era machista, como não ser naquela época? Mais perguntas eles me fazem quando lembram da expressão: "toda mulher gosta de apanhar". Completando o questionamento com a perguntinha cretina, Tu gostas de apanhar? Sempre respondo, a verdade é que ele disse "nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais". E eu sou, assumidamente, ANORMAL!
A verdade é que quando ele falava assim se referia a uma questão sexual. Nelson Rodrigues falava da mulher reprimida que quando podia liberava tudo, geralmente na cama. Quanto a isto cabe aqui a frase "ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível".
Mas o fato que realmente me levou a escrever este texto é aquela velha questão do tal "um tapinha não dói". Sei que quando Nelson Rodrigues se referia as mulheres que gostam de apanhar, esta fala tinha uma conotação sexual, induz a pensar que este gosto seja para a cama. Como anormal que sou, digo logo que não aceito tapas ou coisa que o valha nem no quarto, quanto mais noutro lugar da casa. Mas conheço sim mulheres que admitem gostar de apanhar na hora H.
Numa época em que cada vez mais seja necessário criar campanhas para defender e lutar pelo #FimDaViolênciaContraMulher acabo pensando que aceitar um tapa na hora h é admitir que outros tapas possam acontecer noutros momentos. Desta vez eu concordo com o Nelson Rodrigues, quando ele diz que "o homem começou a própria desumanização quando separou o sexo do amor".
Como saber o limite que separa o tapinha da hora H do empurrão na cozinha? Há como distinguir?
Na minha opinião não dá, pra mim um tapa é um ato de violência, independente do momento. Por isto continuarei sempre fã do Nelson, acho que ele é um ótimo escritor e conhecia a alma humana e continuarei lutando pelo #FimDaViolênciaContraMulher! E com certeza isto não é contradição! "Elas gostam de apanhar", mas eu não!
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