quinta-feira, 8 de julho de 2010

A copa da minha vida

Desde que eu me lembro, me dou por gente, eu gosto de copa do mundo!
Lembro um pouco vagamente a de 1982, confesso que misturo algumas lembranças desta com a de 1986. Mas tenho desculpa, em 82 tinha apenas cinco aninhos. Já em 1986, guardo na memória a triste lembrança do Careca saindo de campo apoiado em outros jogadores, os pênaltis perdidos por Sócrates e Zico, o galinho de ouro. Esta sim, acabou comigo e arrasou meu coraçãozinho de torcedora mirim. Na época não gostava do Casagrande, ou melhor, já não gostava. Também não era muito fã do Júnior, gostava um pouquinho do Zico, até ele perder aquele pênalti, fiquei muito de cara com ele. Mas amava de paixão mesmo era o Muller, este sim morava e mora no meu coração.
No entanto, a Copa da minha vida foi a de 1994. Foi o tetra Campeonato com Romário, Bebeto, Dunga, Cafú e todo o povo erguendo a taça do mundo "que era nossa".
O melhor de tudo era a preparação para os jogos, o quentão, as pipocas, o juntamento com os primos na casa da tia Semita, a bagunça a algazarra quando vinha o grito de gol.
Todos os jogos estavam já programados, era na casa da Preta e do Atila, com a Lili, o Marcelo, o Vinicios, a Scheila, eu e mais um povo. Depois começou a crescer a torcida e veio a Adriane, o Guto (que sempre torce contra a seleção), a Nara, o Zizo, a mãe, a tia Ieda, Tia Semita, Tio Zé e quem mais aparecesse. As vezes faltava espaço pra sentar e a gente ia para o chão. Pulávamos juntos quando o gol saía e xingávamos com palavrões quando o juiz não dava o pênalti que a gente achava que era. Deve ter sido nesta época que aprendi o que é lateral, tiro de meta e escanteio. O tal do impedimento às vezes é esquecido num cantinho do cérebro, mas eu sei.
Também deve ter sido por ali que comecei a gostar dos zagueiros, os caras fortes e bravos que fazem a defesa. Ricardo Gomes, Ricardo Rocha, Aldair. Depois veio o Lúcio, que nesta copa da África foi, sem sombra de dúvidas e, digo sem medo de errar, o melhor, eu disse, O MELHOR JOGADOR DA SELEÇÃO CONVOCADA PELO DUNGA. Aquela copa de 1994 foi sofrida hein?! Nossa decisão em pênaltis e o Taffarel para salvar nosso coração que quase saiu pela boca quando disseram que a decisão seria daquela forma.
A gente já tinha expulsado o Guto da sala porque ele só azucrinava a gente torcendo enlouquecido pela Itália, naquela final dramática. Eu e as gurias elogiávamos o belo Roberto Baggio, sem saber que mais tarde seria ele quem nos ajudaria a conquistar o tetra campeonato mundial de futebol nos Estados Unidos. Aquele placar zerado me dava uma aflição tremenda. Nem o meu ídolo Romário, nem Bebeto tinham conseguido balançar a rede e estávamos em estado total de ansiedade.
Vai que os jogadores vão para o centro do campo, decide-se qual a goleira que será usada para as cobranças e Parreira escala Aldair para bater o primeiro pênalti. O Vinícios, que joga futebol e adora, levanta do sofá e diz enfático: "vou embora zagueiro não pode bater pênalti!"
Aquela frase nunca mais saiu da minha cabeça! Mas ainda assim eu disse pra ele, "o Aldair é bom!" Ele respondeu: "mas é zagueiro!" E ele não ficou na sala, saiu para rua e ficou na frente da casa. Depois da terceira cobrança, a segunda do Brasil ele voltou. A ansiedade era gigante e foi então que a Itália já tinha perdido um pênalti, mas a angustia daquele jogo não acabar não diminuia. Vai que Baggio vai todo seguro, bonitão bater o pênalti. É só ele e o Taffarel, e o nosso goleiro é muito bom. Mas o Taffa nem precisou fazer muito esforço porque o italiano chuta bem embaixo da bola e ela sobe, sobe, sobe e vai por cima do travessão dando o título para o Brasil.
O grito de tetra invade a sala, as ruas, o Brasil. Os jogadores emocionam o país homenageando o nosso querido Airton Senna da Silva, que morreu naquele ano. Esta copa ficou na minha memória para sempre, não consigo esquecer alguns lances, comemorações e principalmente a comunhão da minha família. Nunca mais uma copa do mundo foi igual. Em 1998 foi triste, 2002 eu estava em Ijuí, terra do Dunga, 2006 lembro bem pouco, claro, a cabeçada de Zidane é inesquecível. 2010 ainda está acontecendo, agora torço pela Espanha. Mas nenhuma das copas que vieram depois de 94 mexem tnato comigo. Quem sabe 2014??? Quem sabe...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Personagens da infância

Toda vez que penso nisso, fico com medo de chegar a conclusão de que realmente sou maluca. É que a maioria dos personagens de desenho animado que as outras crianças tinham medo ou não gostavam eram justamente os que eu gostava. Eu já cheguei a falar sobre isto n'outro post há um tempo atrás. No "Sítio do Pica-pau Amarelo" meu personagem favorito era a Cuca. Meus amigos dizem que sentiam medo dela, eu adorava, me identificava a beça. Principalmente, quando ela, se olhando no espelho, dizia com a maior auto confiança do mundo, "lindona, lindona!". Depois dela amava o Saci, ádorava suas traquinagens, o gorro vermelho e seu rodopio. Nunca fui muito de gente assim... muito-muito boazinha. Também gostava da Tia Anastácia, pode ser que em relação a esta as explicações venham de outras encarnações esquecidas providencialmente.
Minha heroina era a Mulher Maravilha. Meu sonho era sair na frente da minha casa e num "giro simples" me transformar da mulher comum, trabalhadora na super heroina linda e forte. Confesso que algumas vezes tentei, mas não tive muito êxito. Acho que a árvore que tínhamos na frente de casa não era o mesmo tipo daquela aonde ela se transformava. Hoje em dia não sei não se gostaria de andar com um tomara que caía com as estrelas dos EUA.
O meu herói favorito ficava verde de raiva. Na verdade, de todos os super heróis o incrível Hulk era o que mais me parecia semelhante a nós, gente. Outro dia minha amiga Jannah disse que sentia medo dele.
Além de gostar dos personagens "estranhos" e "diferentes" eu não gostava daqueles que a maioria das crianças gostava como o Popai e a Olívia Palito. A doida aqui não gostava! Também não gostava e ainda não gosto, da Xuxa. Na Caverna do Dragão tinha pavor daquela Uni. Tanto ela quanto o gurizinho me irritavam demais!!!
E por aí vai...
Será que Freud explica? Tenho lá minhas dúvidas quanto a isso, só tenho certeza de que nunca quis ser igual as outras pessoas. Na minha adolescência customizava roupas, usava camisas e camisetas do meu pai, com muitos acessórios, claro! Enquanto minhas amigas queriam namorar e beijar na boca eu estava pensando em estudar e adquirir a tal independência que minha mãe tanto falava. Eu queria mesmo ser artista, dançar pela vida afora, dar muitas piruetas. Mas nunca quis ser paquita, pelo contrário, achava muito bobas. Enquanto as gurias queriam ser louras eu comecei a pintar meu cabelo de vermelho. Quando todas achavam que as bruxas eram más e queriam ser fadas... Eu queria mais era uma boa bruxa, voar na minha vassoura (apesar de ter medo de altura), fazer poções mágicas e magias, cultivar ervas no meu quintal e dançar pra lua cheia.
Esta sou eu, uma luna em fases, uma imprensa nanica, uma apaixonada pela natureza, uma maluca beleza, com dias de fúria. Fiz terapia sim, me encontrei e me entendi. Algumas vezes a conexão falha e parece que as coisas não funcionam, mas é só respirar fundo e tomar um café que logo-logo o provedor coloca tudo no caminho.
Enfim, comecei falando nas personagens e viajei legal na maionese. Quem me conhece sabe que sou assim, um assunto puxa o outro e a prosa entra madrugada adentro. Caso algum psicólogo queira fazer um diagnóstico.. é só mandá-lo por email. Ah! E por favor, se for caso de internação, não digam nada pra minha família. Valeu!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Chá de laranja com aspirina

Nos dias que me acordo com a cabeça como se tivesse cheia d'água, o nariz entupido que mal dá pra respirar, o corpo dolorido e a garganta raspando só consigo lembrar de como era bom aquele tempo de criança quando minha mãe me dava de noite um cházinho de laranja com uma aspirina dentro e no outro dia eu estava renovada. Tá certo, a idade chega pra todos, fazer o quê né?! Mas um gosto tão singelo me remete aquele tempinho. Sim, porque mesmo não sendo mais criança minha mãe continua me levando cházinho de laranja na cama. O resultado não foi o mesmo. Talvez tenha sido pela falta da aspirina.
Lembro que a pior coisa de estar doente quando criança era não poder brincar, não poder sair pra rua, enquanto meus irmãos andavam por lá jogando bola e correndo. A questão é que geralmente irmãos na mesma faixa etária de idade acabam adoecendo junto.
Só que lá em casa a coisa era diferente, eu ficava doente e meu mano raramente ficava. Minha mãe dizia que era porque ele era muito arteiro. Ele sempre foi, e ainda é, inquieto, mexe com todo muito, amassa um, abraça outro e escabela outros tantos, não consegue ficar quieto. Desta forma, como ele sempre foi assim, eu tive cachumba, contagiei a turma toda e ele nada. Antes disso tive hepatite A e ele nada. Desta vez eu tinha que ficar em repouso, minha cama foi para o corredor para evitar que os guris ficassem doentes e meus pertences ficavam separados. Mas o que mais me deixou de cara foi a catapora. Gente! Eu tive tanta ferida e tanta febre que nem sei.
Estava passando uns dias pra fora na casa da vó Didi, já contei dela pra vocês. Tivemos que vir antes do previsto porque ela ficou com medo que a doença agravasse. Pelo telefone a mãe disse que o mano também estava com catapora. Sim, estava, meia dúzia de feridinhas na barriga e olhe lá. E eu com ferida até no céu da boca. Não conseguia comer porque até na garganta tinha catapora. E lá estava eu esperando a catapora passar enquanto meu irmão tomava banho de chuva no pátio.
É incrível!!!! E mesmo que a mãe cuidasse pra ele não ficar comigo pra não se contagiar da doença, virava e mexia ele aparecia pra me achacar, pra brincar, só pra olhar pra minha cara ou pra gente brigar. E ele tinha sorte, das doenças mais graves que tive ele nunca se contagiou.
Bom mesmo era quando tínhamos gripe, daí ficávamos juntos deitados no sofá, tapados de cobertor vendo televisão e esperando o cházinho de laranja com aspirina. É claro que esta calma só acontecia por alguns minutos e logo ele saia a fazer suas artes por aí.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ditado popular escatológico

Eu gosto muito de ditos e ditados populares. Desde criança eles habitam minha imaginação, tal qual as charges do André Macedo com o Betinho imaginando as palavras.
Tem alguns ditados que a gente só compreende depois de muito tempo. A minha mãe, quando estava fazendo alguma coisa em casa e eu ou meus irmãos íamos pra volta sempre dizia: "fica perto de quem tá cagando, mas não fica perto de quem tá trabalhando". Não é um linguajar muito bonito para uma mocinha né? Mas meu irmão que fez oficina de literatura disse que o escritor não pode ter pudores. Então...
Bem, voltando ao ponto da questão...
Na época eu não entendia, porque, pra mim, ficar perto de quem tá cagando não é muito... cheiroso, digamos assim. Não fazia sentido e não era agradável. Por outro lado, hoje quando estou fazendo alguma atividade doméstica e preciso virar pra um lado, pegar alguma coisa e minha sobrinha está no caminho, bem pertinho de mim lembro da mãe e seu ditado escatológico. Agora sim faz sentido! Perto de quem está "no trono" não o atrapalharíamos, a menos que a pessoa seja do tipo envergonhada e que não consegue fazer as necessidades fisiológicas com alguém por perto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Quiii teeempo bom, que não volta nunca mais...

Na nossa família tudo vira festa e pode, também, virar briga. Tudo dentro do contexto, claro!, brigamos entre nós. Mas entre nós. Aí de quem vir falar mal de alguém para outro familiar! Aí sim é que a briga fica feia. Mas no geral somos da paz, mesmo que pareça que estamos brigando. É que todos falam alto. Na roda de chimarrão as conversas se misturam e o que está numa ponta vai lá e responde para o que está na outra, tudo em alto e bom tom, cada um em seu lugar. E já que estamos todos juntos vamos fazer alguma comilança. É assim... uns contam piadas, outros fatos da vida que mais parecem piada, fazemos comentários sobre a vida alheia, adotamos namorados e namoradas dos primos como se fossem da família, bebemos (se não tem bebida a gente faz uma vaquinha pra comprar, geralmente esquecemos o refri), comemos (aqui também se faz vaquinha, mas geralmente cada um leva umas batatas, uns pedaços de carne e galinha e tá pronta a comilança), nos unimos nos momentos difíceis, mas bom mesmo é quando é festa.

Das lembranças da minha infância o ajuntamento na casa da vó Mália é o que mais nítido eu trago. A casa sempre estava cheia, muitas crianças, entre elas eu, os tios e tias conversando da vida e a cozinha do fogão a lenha. Talvez seja por isto que lá fora eu fico do lado do fogão no inverno e no verão.
Aquela cozinha era disputada por tanta gente que sempre ficava uns dois ou três pra fora. Era neste cômodo que a mulherada tomava chimarrão, que a vó cozinhava o risoto de domingo, que fazíamos batucada até altas horas.
Lembro de uma vez que meu tio Chicão tava num bar perto dali. Daí vieram avisar que ele tinha brigado na venda. Lá vinha o Chicão, triste, chorando. Ninguém sabia o que realmente tinha acontecido. Todos o interrogavam e ele chorava. Todos já alterados, preocupados que tivesse acontecido algo de grave, até que ele disse entre lágrimas:
_ Quebrei meu violão na cabeça daquele filho da puta!
_... e tá chorando por que?, alguém indagou.
_Por causa do violão.
Era meu tio Chicão que puxava a cantoria na cozinha do fogão a lenha. O batuque acontecia no fundo do balde, outro chacoalhava uma caixa de fósforo, outro fazia um som com duas colheres e todos soltavam a voz a plenos pulmões. "Quii teeempo bom! Que não volta nunca maiiisssssssssssssssssss!" Essa é a música do Chicão, não tem uma vez que eu escute essa música que não lembre dele. E onde tem batucada tem gente dançando.
De fora podia ser que alguém, um entendido em música considerasse aquilo uma afronta, um horror! Mas para nós aquilo era uma festa! Celebrávamos mesmo sem data especial. Comemorávamos o simples fato de estar juntos. Na minha família é assim, rimos, festejamos e choramos todos juntos, não importa se o sacrifício é grande e a estrada é longa. Estamos juntos e isto nos basta.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Recebidas por email

Outro dia recebi por email a mensagem que reproduzo logo abaixo. Não me considero afetada por ela, pelo contrário. Fui criada pela minha mãe e pelo meu pai para ser uma mulher independente. Nenhum deles me incentivou a casar e ter filhos. Diziam que eu deveria estudar e trabalhar, ter uma profissão e depois, mais tarde casar, se encontrasse alguém. Embora não acredite em príncipe ou homem perfeito, mais de uma vez me disseram que eu encontrarei meu príncipe encantado. Gosto mais da versão daquelas pessoas que dizem que encontrarei um companheiro que me amará assim como eu o amarei.
"Era uma vez um rapaz que perguntou a uma garota se ela queria casar com ele.

A garota disse NÃO.
E assim ela viveu feliz para sempre sem lavar,sem cozinhar, sem passar roupas para ninguém,saindo com suas amigas, ficando com quem queria, gastando seu dinheiro consigo e sem trabalhar para ninguém.

FIM


O problema é que não nos contam isto quando somos pequenas
Nos enchem com o conto do maldito príncipe azul!

Para todos aqueles homens que perguntam: para que comprar a vaca se posso ter o leite gratuito, temos que dizer: Hoje em dia 80% das mulheres estão contra o matrimônio. Por quê? Porque as mulheres se deram conta de que não vale a pena comprar o porco inteiro por uma salsicha."


Talvez por isso, e ele irá se encher de grau, tenha gostado mais da versão de protesto escrita pelo meu amigo, inteligentíssimo e bem humorado, Cláudio Azevedo Fuhrman, que reproduzo logo abaixo o email dele e a estória.

"De todo o "textículo", não vou te xingar, pois gostei da parte que diz "Agora , envia esta mensagem ...a um homem compreensivo, nobre e com bom humor que tenhas a sorte de conhecer .
Como sou otimista e vejo o lado bom de tudo, vou recontar esta história, com um final menos solitário.

Vejamos…
Era uma vez uma garota compreensiva que sabia que o homem perfeito não existe... , mas inteligente sim..., e que teve a sorte de conhecer um homem inteligente.

Como ele era inteligente...

...dividia com ela àquelas tarefas, que as modernas máquinas ainda não fazem.
... propôs a ela que o melhor era fazer refeições fora... refeição em casa, só com aquele vinhozinho esperto, música de fundo e a lingerie sensual...
... gastava mais com presentes para ela; e ela descobriu que bom mesmo é presentear aos outros, do que a si mesmo...
...deixava ela sair com os amigas, com a condição que ele poderia fazer o mesmo.


Era uma vez uma garota... que descobriu que a compreensão, a nobreza, o bom humor só são transmitidos quando recebidos e que o gostoso da vida a dois está, não na tentativa de mudar o outro e, sim, no desafio diário de achar a melhor forma de resolver as diversidades, sempre com compreensão, nobreza(que é irmã do respeito) e bom humor... de ambas as partes..."

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Decepção

A decepção só acontece porque nós nos iludimos tanto com alguém, ou alguma coisa, que não conseguimos ver a essência. A decepção é uma surpresa ruim. Mas não é aquela surpresa ruim que nós inventamos. A que inventamos funciona mais ou menos assim, queremos muito uma blusa que experimentamos numa loja e ficamos pensando, bem que fulano podia me dar esta blusa né? Mas não contamos ao fulano que a queremos. Só que é natal e já compramos aquele livro ou Cd que ele falou que queria comprar. Então esperamos pela surpresa. A surpresa começa pela leitura do nosso pensamento, da adivinhação das nossas vontades, que responda com as exatas palavras com que sonhamos. Mas algumas pessoas, os homens especialmente, são distraídos por natureza. Então que compram um perfume ou uma lingerie, ou uma outra coisa qualquer que eles imaginam que queremos. A surpresa ruim é não ter ganho a blusa.
Quando nos decepcionamos com alguém a situação é bem mais intensa e profunda. Tem quem sinta dor física, dependendo do tamanho da decepção. Nós olhamos para tudo aquilo e não acreditamos, ficamos rebobinando a fita da memória tentando entender como as coisas foram acontecer daquele jeito e, é claro, em vários momentos nos culpamos. E a culpa é realmente nossa por termos criado uma imagem perfeita, muito aquém daquele ser que está ali. Não porque a nossa ilusão seja melhor, mas porque na nossa idealização tudo saí como a gente quer.
No entanto, tem alguma coisa naquela ilusão toda que é verdadeiro. Que seja amor ou amizade, mas de alguma parte tem que ser real para que a decepção aconteça. Até porque... se nenhuma das partes tem verdade na relação... não existe relação e ambos estão protegidos da decepção e da tristeza.
Em 32 anos de vida não lembro de ter tido decepção. Tive várias tristezas, amores não correspondidos, amigos que se afastaram com o tempo, outros que não eram tão amigos assim. Mas decepção que me levasse a fazer uma revisão nos meus valores e no meu modo de agir com meus amigos é a primeira vez. Existem pessoas que não são sinceras com a gente e mesmo que tentem disfarçar se pode perceber na sua maneira de olhar, em alguns vícios na maneira de falar sua falta de sinceridade. Por outro lado, há pessoas que são sinceras até demais, que mantém a relação de forma saudável, só que um dia qualquer, por um motivo qualquer mostram uma face que desconhecemos. Agem de forma inesperada, dizem coisas que jamais diriam, fazem coisas que não fariam antigamente. É neste caso que a decepção nos parte ao meio. Nos faz perceber o quanto nos iludimos na defesa de algo que apenas nós sentíamos ou entendíamos. É como a secretária ter um caso com o superior no escritório, um belo dia ela recebe a demissão. Ele a demitiu porque a mulher descobriu o caso, mas disse que foi por outro motivo. A decepção dela não é por ter sido demitida, mas por ele não ter tido a decência, a compaixão, a dignidade de dizer a ela o que aconteceu. Deixou que ela fosse pega de surpresa, despreparada. Ela se sentiu humilhada, traída, arrasada. Ele misturou um assunto particular, pessoal com um profissional.
Ela se sentiu arrasada porque sabe que n'outra situação semelhante o chefe lhe diria o motivo da demissão e neste caso ela sabe o motivo, assim como sabe que é injusto.
Minha sensação de decepção é parecido com este. Não há explicação que faça o sentimento de ter recebido uma rasteira passar. O coração se partiu e agora a decepção deu lugar a um cansaço tremendo.