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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Tempo

Tenho tantas histórias e estórias pra colocar aqui e o tempo passa tão rápido! Tem períodos que meu tempo pra escrever é enorme e consigo postar textos gigantes (pessoa prolixa!) quase todo o dia e em outros períodos não consigo alcançar a meta de um texto por semana. Lá no Imprensa Nanica não vou há meses! Mas são tantas coisas acontecendo na política, na sociedade, no mundo que tem dias que me sinto sufocada, atropelada. E neste atropelo não consigo formular uma ideia a respeito das coisas apenas lamento.
Também tem uma coisa quando eu resolvi mudar, digo tentar mudar, optei por não usar certas palavras, não propagar as coisas de que não gosto. Não me tornei alienada não. Assisto jornal, mas às vezes não consigo ler os jornais locais, leio notícias na internet, ou seja sigo me informando. Mas como eu escutei uma vez da amiga Zeneida deixo "entrar por um ouvido e sair por outro" (ela não disse com estas palavras). Prefiro não ficar falando do que não deu certo e do que tá ruim. Não vivo felizinha, embora ande pela rua com um sorriso bobo, alvo de deboche d'algumas amigas. Sei que temos muito o que mudar e melhorar, mas realmente me conscientizei que falar incansavelmente sobre um problema não o torna melhor ou soluciona.
Confesso que é beeeem difícil pra mim. Falando parece fácil, barbadinha como dizia o Igor, mas não é não. Mas uma coisa posso dizer sem medo, a vida fica mais leve quando largamos toda esta carga negativa. Quando paramos de ajuntar pensamentos e sentimentos negativos, preocupações e angústias. Conseguimos viver pequenos momentos de prazer e satisfação e, até é possível, andar com um sorriso no canto da boca contagiando outras pessoas.
Por isto, ao invés de reclamar da falta do tempo... com o qual eu fiz as pazes porque "tudo tem seu tempo certo de acontecer" e este é um mantra que devo estar usando há pelo menos uns quatro anos... vou falar das coisas legais que acontecem quando o tempo tá curto.
É quando o tempo é curto a gente aproveita, valoriza, vive intensamente aquilo, a coisa, a situação. Eu aprendi isto quando morei fora. Foram poucos meses, mas o aprendizado foi enorme. Neste período de visitas com tempo contado me fizeram aprender que agora é o tempo certo pra tudo. A sensação de chegar na rodoviária num final de semana ou feriado e já comprar a passagem de volta é terrível, mas ajuda a gente a perceber que pequenas discussões que a gente tem, que muitas vezes se repetem, podem ser deixadas pra lá, porque temos tanta coisa pra contar do tempo que a gente estava separado e discutir aquela bobagem, aí sim, é perda de tempo.
Por estar longe dos meus sobrinhos aquele tempo juntinho deles pequenos (e lá se vão 10 anos!) era precioso! Não podia deixar de brincar com eles, estar com eles, rir com eles, se não de que forma poderia contar as histórias e as expressões que eles inventavam naquela época?
Conheci tanta rodoviária! Gente, não sei, mas tenho número de pelo menos sete rodoviárias no meu celular. Ia pegando os números pra saber horários de ônibus e como sempre precisava saber os horários guardei os números. Às vezes calculava mal os horários de chegada e precisava ficar uma hora esperando o próximo ônibus, quando não tinha que bater na porta da Ana Paula pedindo abrigo porque ônibus só no outro dia de manhã. E este imprevisto era ótimo, pelo menos pra mim, que reencontrava minha amiga querida, sabia das novidades, comia uma comidinha quentinha e sempre ria muito na companhia dela. Na vinda de Campinas bati na porta dela apenas com a roupa do corpo, porque por causa de um atraso quase perco o ônibus dentro da rodoviária. Foi uma correria danada! Meu irmão não conseguia estacionamento, eu tinha que trocar a passagem comprada na internet, a minha sobrinha e a cunhada com minha mala e a gente se desencontrou. A saída do ônibus já estava atrasada e eu ligando pra eles e nada. Resultado... vim embora sem mala, depois de termos tentado que eles me entregassem a mala em alguma parada do ônibus pelo trajeto.
Então eu chego em Porto Alegre e o último bus já tinha saído. Tinha tido uma enchente em São Lourenço do Sul e parte da estrada estava fechada e o percurso até Pelotas era mais longo, enfim... Mais uma vez a Anucha me salva de passar a noite na rodoviária! E aquela noite foi muito legal!
Foram algumas horinhas que fiquei lá, mas foram horinhas inesquecíveis.
O tempo pode nos atropelar e quem sabe até dizer que "não vamos conseguir fazer tudo que queremos". E pode também nos ensinar a andar devagar apreciando as coisas e os momentos. É a gente quem escolhe!

Quadrinhos Bichinhos de Jardim


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Pra mim é muito difícil fazer uma retrospectiva do ano. Sim, embora pareça clichê e aquela propaganda do banco "o tempo voa" e sempre confundo acontecimentos deste ano com o ano anterior e o outro ainda. Mas analisando o tempo que ficou pra trás e fazendo um balanço de tudo creio que valeu a pena.
Na virada do ano passado a primeira pessoa que eu abracei foi o Igor. A gente estava deitado no quarto juntos, ele aguentando no osso do peito as dores terríveis do braço e eu com problemas intestinais. Naquele dia me dei conta que sempre que a gente tava junto, o Igor e eu, ele era o primeiro a me abraçar na virada do ano. E este ano não vamos nos abraçar fisicamente. Ele partiu em fevereiro deste ano, ficou a saudade daquele jeitinho dele. Vira e mexe a gente lembra de alguma coisa que ele dizia, dalguma bobagem, enfim... Mas ainda que ele esteja na espiritualidade sei que ele recebe nossas vibrações de carinho, amizade e amor, a partida foi cedo e comoveu muita gente porque o Igor era muito querido por onde passava e creio que isto é o verdadeiro sentido da nossa existência, aprender, amar, ser amado.
Foram tempos difíceis depois que ele foi. As coisas amenizaram um pouco, mas a saudade esta cá e lá. E fomos aos poucos retomando a rotina, aproveitando as alegrias de ter o Yuri fazendo graças e descobrindo o mundo daquele jeitinho que só as crianças podem e conseguem vê-lo. Aprendendo aos poucos que precisamos aproveitar as pequenas alegrias da vida, os doces momentos em família e com os amigos, estes momentos que nos fazem felizes.
Muita gente achou o ano de 2013 ruim, vi muitos dizendo acaba logo 2013 ou coisas assim. Segundo a numerologia e outras vertentes místicas 2013 é um ano de conclusão, de encerramento de ciclo. Teve muita violência nas ruas, teve muitas mortes, teve momentos de comoção, como no caso da boate Kiss. Para algumas pessoas próximas foi uma ano difícil porque tiveram partidas inesperadas. A superação foi a meta destes amigos, aos quais eu admiro muito pela força e pela fé. A certeza de que um dia a gente se reencontra com aqueles que nos antecederam ajuda a aguentar a saudade. Teve alguns desastres naturais, pessoas perderam o pouco que tinham, outros perderam pessoas queridas, mas no meio destes desastres teve solidariedade, teve união. Vi muita gente falando mal da humanidade por conta de violência, roubo e outras desgraças. Mas eu prefiro me emocionar com aqueles que fazem o bem, que mesmo na sua dor arranjam forças para dar amor e ajudar quem precisa.
Mas o ano foi de renovação também. E Então numa terça feira, fria e chuvosa de agosto recebemos um presentão chamado João Pedro. Uma criança linda e saudável escondida numa barriguinha por nove meses. E quem diria que receberíamos tão lindo presente?! Uma nova alegria que reforça o pensamento de que a vida é um ir e vir. É assim, como diz a música do Milton Nascimento e do Fernando Brant, cantada pela Maria Rita a vida é uma estação com "encontros e despedidas".
2013 pra mim foi um bom ano, tive bons momentos e tive momentos difíceis, mas ninguém disse que seria fácil, mas garantiram que valeria a pena. E vale cada segundo!Tive que aprender muita coisa, tive que me adaptar, tive que mudar, mas tudo vale a pena. Reencontrei amigos, fiquei mais perto da minha família, mudei de casa, encontrei o amor, fiz mais amigos, li muitos livros (não todos que gostaria), vi muitos filmes, admirei a lua, admirei muito o céu pra observar as nuvens, os pássaros, pra receber o sol e o vento no rosto. Plantei flores, peguei recém nascidos no colo, mudei fralda, dei banho, fui a reunião de pais, esqueci a Larissa no colégio e tive que sair correndo pra buscá-la. Tanta coisa cotidiana que me fez sentir viva e feliz que não dá pra enumerar.
E de 2014? O que espero? 365 oportunidades!

E só para lembrar, prestem atenção na Mafalda com sua grande sabedoria: 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A idade que o coração dói

Uma vez me disseram no centro espírita que vou, e isto faz tempo, que 26 anos é a idade que o coração dói. Achei estranho, porque pra mim o coração doía por motivos incontáveis, por causa de muitas possibilidades, nem sabia, só cogitava muitas ideias. Então o guia que me dava passe disse olhando dentro dos meus olhos, "é verdade, tem uma idade que o coração dói, depois passa". E me orientou a respirar profundamente por alguns segundos observando o altar e sentindo o batimento dentro do peito. Obedeci.
E toda vez que sentia o coração pesado, apertado ou doido fazia aquele exercício lembrando daquela senhora que me atendeu. E ela tinha razão, "tem uma idade que o coração dói, depois passa". Passou!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Paixonite de infância

Hoje quando fui buscar minha sobrinha na escola dois coleguinhas dela começaram a cantar "é o amor" numa alusão a paixonite que ambos tem por ela. Outro diz diz que eles brigaram porque os dois gostam dela. Mas ela não quer saber de nenhum deles. Assistindo a cena acabei, inevitavelmente lembrando de três colegas da segunda série que cantavam o tempo todo na minha volta uma música do extinto grupo Dominó e que traduzia sua sensação de tristeza por eu não corresponder seus sentimentos.
Uma tagarela como eu sempre tinha papo com todos da sala, não precisava que ninguém respondesse, bastava estar do lado escutando meu monólogo incansável. Então eu conversava com os colegas concentrados e com os "terríveis" da sala, no caso dois Leonardos e um Cristiano. É engraçado que eles gostavam de mim e supunham, lá com seus botões, que eu gostavam de algum deles, é claro. Ainda mais que eu sentava numa carteira próxima e conversava com eles.
Um dia antes de sair da sala para o recreio eles vieram os três juntos para saber, afinal de contas de qual deles eu gostava. Nunca fui uma pessoa de enrolar. Digo logo o que sinto ou não sinto, sem enrolação. Naquela época não era diferente.
Um dos Leonardos foi quem disse que queria falar comigo. O Leonardo era meu colega desde a primeira série. O outro Leonardo chegou depois transferido de outra escola e com uma fama de aluno mal comportado. O Cristiano também não tinha lá uma fama das melhores. Apesar de todos terem algum problema de comportamento, o que hoje considero apenas uma enorme energia e um comportamento compatível com o fato de serem crianças, todos tinham boas notas. O colega chegou dizendo de forma incisiva que eu tinha que decidir de qual dos três eu gostava.
Na época acho que não arqueava a sobrancelha, ainda, mas se o fizesse com certeza neste momento ela devia estar nas alturas. Mas nem deu tempo de uma resposta desaforada porque os outros me cercaram dizendo que era verdade e eu tinha que dizer de quem eu gostava, que tinha que decidir. Então eu decidi mui categoricamente e com uma gentileza sem tamanho...
_ Eu não gosto de nenhum dos três e nem temos idade para este tipo de coisa.
Depois desta resposta toda vez que eles se aproximavam era pra cantar "mas ela não gosta de mim/ vive me dizendo não/ nem tem pena do meu coração/Que só vive nessa ilusão". Confesso que ficava bem vaidosa, principalmente porque adorava o grupo Dominó.
Esta lembrança estava quase esquecida, não fossem os coleguinhas da Larissa saírem pela rua cantando pra ela, talvez não fosse lembrar disso tão cedo. Fiquei com vontade de escutar o Dominó.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A formiguinha e o elefante

Quando eu era pequena passei muitas tardes da minha infância na casa do tio Lauro e da tia Marli, com o Laudemir, o Miguel e a Maribel. Pra casa deles eu ia de caçamba quando o tio ia lá em casa me pegar e quando eu queria voltar pra casa cantava Lady Laura do Roberto Carlos, numa versão minha mudando Laura por  Lauro.
Foi numa destas tardes que a tia Marli me contou a história da formiguinha e do elefante.  Não sei se isto é uma fábula safada (uma safábula, diria a Jannah) ou se é realmente uma história de crianças que foi subvertida por adultos maliciosos. Pesquisando no google (óbvio haha) vi que tem uma porção de historinhas sobre a formiguinha e o elefante, demorei e encontrei num blog a versão da tia Marli que diz o seguinte:
Certa vez uma formiguinha precisava atravessar um riacho, mas sozinha corria o risco de afogar-se pois era muito fundo. Então que entra na água um elefante a quem a formiga pede ajuda.
_Ei amigo elefante eu preciso atravessar o riacho, mas sou muito pequena, pode me ajudar?
Logo o paquiderme responde:
_Claro suba nas minhas costas e te dou uma carona.
Ela mais que ligeiro se coloca no lombo do elefante e fica bem firme. Quando chegam do outro lado a formiguinha agradece ao amigo.
_Obrigada amiga, muito obrigada você salvou minha vida!
E o elefante mais que ligeiro retruca:
_Obrigado nada, pode baixando as calcinhas!

Não é uma história muito própria pra crianças eu acho. Mas na época que ouvi pela primeira vez se quer podia dar qualquer conotação maliciosa. Devo ter levado pelo menos uns 15 anos pra entender a história.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Uma palavrinhas sobre sapatos...

Sapatos são a paixão de muitas mulheres. Mas são também um problema quando apertam e machucam. Quando entra uma pedrinha então... por menor que seja causa um mal estar tremendo. Uma época eu amava comprar sapatos, sempre com salto alto pra "crescer" uns centímetros. Daí passei um período de auto reconhecimento, de aceitação e aposentei os saltos trocando-os  por confortáveis sapatos baixos e macios. Além de passar a comprar só o que realmente preciso. Nesta época e na adolescência apareceu a primeira metáfora sobre sapatos. Minha mãe sempre me falava um verso que dizia "chorava porque não tinha sapatos, até encontrar um homem que não tinha pés". O sapato e o pé apertado vão formando inúmeras metáforas (a partir daí) que traduzem muitas vezes alguns pensamentos meus que, de outra forma não teria como exprimir. Este verso no caso demonstra o quanto a preocupação com o material é supérflua diante de um problema real. Larguei a compulsão pelos sapatos.

O Raulzito, meu ídolo querido traduz para seu pai, através do exemplo do "sapato 36" que não lhe cabe mais, o quanto já cresceu na vida e que tem capacidade de fazer suas próprias escolhas, sabendo o que é melhor para si. Durante muito tempo (e algumas vezes hoje em dia) esta música me representou. Até que me dei conta, assim como Raul que "eu já sou crescidinha, que vou escolher meu sapato e andar do jeito que eu gosto". Larguei o sapato de salto que me apertava, desequilibrava e me piorou o joanete. 

Esta semana uma querida amiga recebeu, de uma amiga sua, umas palavras que a lembraram dela. Palavras estas sobre sapatos. Uma metáfora sobre sapatos e situações da vida em geral. Claro que as palavras cabem bem para os casos de relacionamentos amorosos, mas eu a compreendo de uma maneira mais ampla. Devemos aprender com "os sapatos" que passaram pelos nossos pés. Alguns foram de grande serventia e aprendizado, como o caso das minhas botinhas ortopédicas, que embora não tenham me curado, me ajudaram a caminhar sem cair por algum tempo. Mas deixaram de servir e precisei passá-las adiante. 
Não nego que quando li as palavras da amiga da Gabi pra ela, lembrei de muitas pessoas que acabam calçando o mesmo sapato várias e várias vezes mesmo sabendo que eles não servem mais. E depois disso eu olhei para a minha sapateira interna e revisei quantos pares de sapato eu insisto em guardar e usar mesmo sabendo que causam dores, "bolhas e às vezes até sangram". Larguei o apego e limpei a sapateira doando para quem servir os sapatos que não posso mais usar. 
Aqui as palavrinhas sobre sapatos dedicadas pela Sá (tri intima e nem conheço) para a Gabrielle Colvara. Desculpa o abuso Gabi, mas estas palavrinhas são uma metáfora que me abriu os olhos por isto tô compartilhando. Me serviram com uma luva! ;) 

"Insistir em algo que nunca dá certo é como calçar um sapato que não serve mais, machuca, causa bolhas, às vezes até sangra. Aí você percebe que o melhor é ficar descalço. Deixar totalmente livre o coração enquanto vive. Deixar livre os pés, enquanto cresce. Porque quando a gente vai crescendo, o número muda. E o que você insistia em por, não lhe serve mais. Às vezes na vida, você tem que esquecer o que você quer, para começar a entender o que você realmente merece." 

Ouça a música do Raulzito tá?

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Declaração de amor

É estranho como conseguimos lembrar de coisas que parecem tão distantes com a força e a nitidez daquelas que aconteceram ontem. Muitas vezes as recordações vem aos borbotões sem que, aparentemente, nada as tenham trazida. Noutras vezes observar uma fotografia faz com que surjam toda a atmosfera presente naquele momento vivido. Meu tio ontem me mostrou a fotografia dos meus primos, ambos já vivendo na espiritualidade. Quando o Laudemir partiu, precocemente para nós que aqui ficamos, eu tinha apenas três anos e alguns meses e tenho lembranças muito vívidas dos momentos que passei com ele. Lembro, inclusive de um sonho que tive ao saber que ele tinha morrido afogado numa outra cidade próxima daqui de Pelotas. Intriga-me o fato de eu lembrar destas coisas. Foram muitos momentos felizes e ele sempre me deu muito amor. Observar sua fotografia, o rosto jovem, os cabelos cacheados um pouco grandes e a seriedade do seu olhar dá uma saudade! Vontade de abraçar sabe? Aquele abraço profundo em que a troca de energia, amor e carinho é tão grande que nos sentimos protegidos, aliviados dos cansaços, saudáveis e amados.

Talvez ele já esteja aqui, entre nós. Afinal já se passaram 33 anos... Mas a saudade que tenho não é melancólica, não tem tristeza. É só saudade! Entende? É lembrar daqueles momentos com um sorriso na cara e o pensamento de "ainda bem que vivemos isto" e tem a gratidão de ter tido o prazer de conviver, mesmo que pouco, com alguém capaz de amar a gente só por amar.

E meus tios tiveram força para seguir mesmo com toda a dor, que veio aumentar mais com a partida do Miguel, alguns anos mais tarde. Com este sim convivi muito tempo. Um primo querido que pensava que era meu irmão mais velho e queria mandar em mim. Nunca vou esquecer quando ele disse que não gostava do meu cabelo curto porque eu parecia uma mulher. Das proteções que damos aqueles que amamos... E o mais engraçado que quando ele me disse isto eu já estava com 18 ou 19 anos, trabalhando no escritório e cursando faculdade. Eu já era mulher pra mim, mas acho que nunca cheguei a ser pra ele, pra quem eu continuava criança.
Olhando pra trás percebo que também já faz muito tempo que ele partiu, deixando saudade.

Eu tenho muita sorte porque tenho e tive próximo de mim sempre muitos primos. Amigos primeiros da vida inteira, com quem brincava na infância, com quem briguei muitas vezes, com quem comecei a sair, com quem há cumplicidade e carinho mútuo apesar da distância e de quem sempre sabemos algum secreto ou história engraçada e da qual o primo tem vergonha. Posso dizer, já que hoje é dia dos namorados, que ajudei a formar dois casais que amo muito, a Graciela e o Jeferson e a Camila e o Alessandro. Fui "cupido" destes dois amores lindos que deram dois frutos mais lindos ainda o Nicolas (da Negra e do Jeferson) e o Camilinho (da Camila e do Alessandro).
E é tanta gente de quem falar que tenho medo de esquecer alguém, tanta gente pra quem declarar meu amor. O Nei, a Cris, a Ana, a Maribel e a Grazi, o Preto (de quem eu não sabia o nome até meus sete ou oito anos, agora eu sei é Flávio), o Vinícius, a Nara, a Preta, a Lilica, a Adriane, o Duda, o Andi, a Márcia (que também se foi cedo),  a Fabiana, a Vivi, a Gilda (quanto aprontamos!). Tem todos os filhos do Chicão, tem os primos dos primos com quem a gente acampava todos os verões da infância, tem os filhos dos primos segundos, tem os primos dos irmãos por parte de pai. É minha família é grande, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Tem problemas como todas tem, desentendimentos, rusgas, mas tem uma coisa que supera tudo isto e o nome desta coisa é AMOR. É o que une toda esta gente e faz as festas animadas, os encontros em qualquer lugar engraçados (inclusive nos velórios dos familiares queridos). Agradeço muito por ter toda esta gente na minha árvore genealógica, no meu face, no meu orkut, nas redes sociais, nas virtuais e principalmente no coração. Hoje declaro, descaradamente, meu amor aos primos, primas, sobrinhos, irmãos, pais, vó, tios e tias. P'raqueles que estão aqui ao alcance da minha vista e p'aqueles outros que estão na espiritualidade. Amo vocês!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A vida voltando a seu curso

É estranho quando alguém parte a sensação que fica com a gente. Mesmo quando a pessoa não desencarna as coisas mudam muito. O nosso encontro com aquela pessoa não vai ser mais tão frequente quanto antes. Talvez nem o contato. O que sentimos é aquele vazio, aquela falta de ver o rosto familiar num encontro casual.
Lembro das minhas perdas na família de forma bem clara. A primeira de que me dou conta é a da minha tia avó Edite, que era doente e a qual sempre via em sua cadeira de rodas na sala da casa da vó Mália sendo cuidada pela vó Mila. Quando a Edite faleceu era muito estranho chegar na vó e não encontrar aquela cadeira na sala! Eu devia ter uns nove anos. Não chorava a perda, mas sentia muita falta. Não compreendia direito pra onde ela tinha ido, nem porque.
Em seguida perdemos a minha bisa. Minha mãe sofreu muito esta perda e lembro dela comentando que pra ela não fazia sentido o sol brilhar e a vida seguir sem a vó Mila ali junto de nós. Eu lembro da noite que meu pai me contou que a vó Elmiria tinha morrido. Ele recém tinha recebido a notícia por telefone. A falta da minha bisa era sentida desde a esquina da casa da vó Mália de onde a avistávamos escorada no muro nos esperando todas as tardes. Para compreender isto leva tempo! Na verdade para conseguir não enxergar a vó Mila ali, na frente da casa, com o braço apoiado no muro levou tempo. E não fosse a casa não estar mais lá, tal como era, é bem possível que ao entrar na rua eu a avistasse. Porque meus olhos sentem saudade de ver aquela imagem.
Como espírita eu sei que elas estão bem, talvez até já no nosso convício novamente. Mas a saudade fica e as lembranças permanecem sempre. Sem contar que cada um encara esta ausência de forma diferente.
Atualmente sentimos, e posso dizer que toda a família sente de forma unanime,as faltas do tio Zé e do Igor. É como um sonho. É como se a qualquer momento fossemos encontrar um deles, como se eles fossem chegar a qualquer instante. Ainda que eu saiba que bons espíritos os amparam, e eu peço isso todos os dias, se bobear a cada vez que lembro deles, a saudade é constante. E saber lidar com esta ausência talvez seja o mais difícil na tentativa de fazer com que a vida corra normalmente. Porque não dá para simplesmente apagar aquelas pessoas que amamos tanto e que já fizeram a viagem. E também não dá para impedir que o sol brilhe e que a vida siga. É um momento de readaptação. E a vida é readaptação constante.
Agora mesmo enquanto escrevo não consigo impedir que uma lágrima caia. Não consigo ignorar a ideia de que sofrer os fará sofrer também. E não conseguir racionalizar isto sempre, deixando escapar a lágrima ou um suspiro de saudade é me sentir viva e me sentir gente. É sentir a contradição de querer aquelas pessoas bem e felizes e, ao mesmo tempo, querê-las comigo.
O melhor nestes casos, como para tantos outros, é o tempo. É o remédio que atenua a dor. É o senhor sábio que nos aconselha. E é através dele, no "correr" dele, que a vida vai voltando a seu curso.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reencontro

Não lembro como foi meu primeiro dia de aula. É estranho eu sei! Lembro com grande facilidade do teste que fiz na sala da diretora para que avaliassem se devia entrar no pré-escolar ou poderia ir direto para a primeira série. Lembro da minha pastinha, se fechar os olhos posso sentir o cheiro de nova que ela tinha. Ela era estilo maletinha, azul, com uns desenhos na frente e o fechinho era de encaixar. Bem que eu queria uma mochila... bem, meu pai escolheu algo que se parecesse comigo, acho. Eu lembro da professora Maria Inês, da sineta que a dona Leonídia chacoalhava no corredor diante da secretaria, mas eu não lembro do meu primeiro dia na escola.
Na verdade não recordo de algumas coisas que a maioria das pessoas lembra. Eu relembro com clareza do teste de leitura. Lembro de minha primeira aula no novo colégio. Aliás, seria impossível não lembrar, porque eu caí na sala. Lembro das brincadeiras no pátio da escola no meio das flores do jardim da dona Leonídia. Gente, é possível sentir o sabor do lanche que fazia com minha prima Liliane e minha amiga Rosane na hora do recreio. O pão com molho e fanta comprados no bar do colégio era como uma espécie de manjar!
Relembro com saudade das minhas discussões com a colega Giovana que sempre ficava reclamando que eu falava demais e que seria mulher de político ou narradora de futebol quanto eu crescesse. Tenho memórias muito carinhosas de momentos inesquecíveis, de colegas, de festinhas, de despedidas, de professoras, enfim... mas eu não lembro do meu primeiro dia na escola. Porque será que esta lembrança se perdeu?
Será que meus arquivos estavam cheios e precisavam de espaço? Será que minha lembrança do primeiro dia foi deletada para guardar teus sorrisos, as coisas que me dizias, as histórias que me contavas? Vai ver esqueci o primeiro dia na escola para poder lembrar sempre do teu rosto. Ou... talvez, a lembrança tenha se esvaído porque eu precisava guardar na minha memória todo o carinho que te dediquei e para isto era preciso espaço para lembranças que mantivessem a chama da nossa amizade acesa em meu coração, porque, mais cedo ou mais tarde nosso reencontro aconteceria e toda aquela saudade se dissiparia.
Vai ver o objetivo de eu não ter guardado uma lembrança tão importante quanto meu primeiro dia na escola, tenha sido porque eu precisava manter preservadas todos os momentos que vivemos juntos. De repente é porque no nosso reencontro eu precisasse reavivar tuas lembranças, reacendendo brasas adormecidas nas tuas memórias. E foi tão bom ouvir tua voz! Te olhar nos olhos! Confesso que fiquei nervosa, minha cabeça rodava e o coração acelerou. Acho até que deu pra perceber que minha voz embargou e algumas palavras saíram tremidas. Talvez o nosso receio tenha sido o mesmo, o meu de te fazer lembrar momentos difíceis e o teu também.
Quero te dizer que fiquei feliz de teres lembrado de mim, mesmo depois de tantos anos. Não sei se minhas memórias te farão bem, se te farão feliz. Mas sei, que de todas as minhas memórias importantes teu olhar e teu sorriso não poderiam ter sido apagados das minhas lembranças. E eles continuam iguais, mesmo depois de tanto tempo!
Sei que o olhar ficou mais sedutor, é vero! O que não mudou foi a verdade que vejo, que via no teu olhar quando encontrava o meu. Como pude guardar tantos detalhes da tua personalidade, dos teus trejeitos, o som da tua voz, o brilho dos teus olhos em minha lembrança e não consigo recordar o meu primeiro dia de aula, tão importante na minha história de vida? Não encontro explicação! Esta memória só pode ter se perdido porque, mais importante do que ter vivido estes momentos ao teu lado meu amigo, foi ter guardado fatos suficientes para te reencontrar! Mais importante do que ter te conhecido, foi ter te reencontrado!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Trabalho duro e bonecas feitas com peças de arado

_ Estas crianças não sabem brincar! Não se intertem com nada! Tem um mundo de brinquedos, bonecas, carrinhos... tempo livre para brincar e não brincam! No meu tempo não era assim. Ah! Se eu ia ter tempo de tá brincando!
Minha avó conta a sua infância para meus sobrinhos, os netos filhos do filho caçula dela. Há um pouco de ressentimento em sua voz, coisa normal após tantos anos de sofrimento! Sofrimento fruto de mágoas do passado e também criações do seu próprio pessimismo. Não é fácil pra ninguém ter crescido sem ter brincado, sem ter tido infância. Não é fácil ter feito sempre, sempre tudo do jeito que os outros esperavam que fosse feito e, ainda assim, se sentir incompleta. Porque quando se faz tudo o que os outros querem, agradando aos outros, quem se desagrada é a gente!
Uma infância de trabalho na lavoura junto com os pais, plantando e colhendo, capinando, ajudando a cuidar dos animais e da casa. Ter uma irmã sofrendo de doenças mentais e resolver que não iria se separar nem da mãe nem da irmã. Não haviam brinquedos, teve tempo que não tinha comida. Nos momentos de folga, peças velhas que não se usariam mais no arado eram o que viravam as bonecas da vó e das irmãs dela. 
Não havia tempo para estudar, as brincadeiras então... raramente existiam.
É interessante como as pessoas enfrentam de forma tão diferentes as coisas que acontecem nas suas vidas! Minha bisavó Elmira criou os filhos sozinha, ajudou a criar os netos, ficou junto com a filha doente até os últimos dias dela. Passou trabalho, passou fome. E não lembro dela carregada de pessimismo.
Minha avó já é mais dura, não com as pessoas, creio que ela seja dura consigo mesma. Tem uma grande seriedade com tudo. Com certeza fruto do sufocamento da sua infância. Ela teve nove filhos, alguns partos dificílimos, a maioria em casa! Ficou viúva cedo! Mas sua quietude vem de muito antes disso! Sua seriedade com tudo na vida vem de não ter tido tempo para brincar, não ter tido meninice.
Lembro de ficar depois da escola na casa dela, mas não lembro muito de vê-la conversando com as pessoas. Posso sentir o cheiro do risoto que fazia aos domingos, posso sentir o odor da casa e as paredes quentes da cozinha onde ficava o fogão a lenha. Mas lembro pouco dela conversando, rindo...
Hoje em dia ela fala bem mais. Tem vezes que fala tanto que parece que precisa se livrar de tudo aquilo dentro dela, tem que botar pra fora. Compreendo a maneira como ela vê as coisas, compreendo seus motivos de tristeza, já perdeu marido, filho, netos... Pensa incessantemente nos que estão longe, nos que estão sem trabalho, nos que dirigem, nos que andam nas ruas, nos que casaram, nos que tem filhos e em todos aqueles de quem gosta, filho dos  filhos dos filhos dos filhos... Sua cabeça não para, sempre com preocupações variadas. O sono não vem diante de tanta gente por quem pedir, com quem se preocupar. Há motivos, isto é certo! Mas há algo de melancólico e sofredor! Algo de que me falaram certa vez, que vem nos genes,  faz parte do DNA da gente que é misturado. Dizem que cada povo tem seu traço característico, alguns são alegres e falastrões como os italianos, outros sofredores como os portugueses. Minha avó tem um pouco de sangue português, pois embora tenha sido registrada com o sobrenome Nunes, é, na verdade, Oliveira.
Eu tenho um pouco desta melancolia, desta coisa que parece estar sempre tocando um fado de fundo musical. Também tocam boleros arrastados, a velha "Ronda" ou o "Folhetim". Só que comigo tem as batucadas e o Raulzito e todo um repertório que parece não ser o gosto musical de uma mesma pessoa tamanha a disparidade de estilos.
Olhando pra minha avó às vezes parece, que só tocam fados na vida dela. São poucos momentos de riso. Mas o que ela não sabe, não tem consciência é de que é uma vencedora. Ela apenas não acredita nisto!

PS.: Esta história é baseada na história de vida da minha avó, tem muito mais  para contar, este é um pequeno reconhecimento para ela que tem sim um história de vida linda. Não foi fácil, mas o mais importante é o proveito que se tira de tudo.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Obtuários do jornal

Alguns dias do mês fico relativamente sem ter o que fazer aqui no escritório. Aproveito este tempo para ler notícias de jornal, escrever nos blogs, ativar o cérebro com jogos e leituras. Geralmente isto ocorre pelo final do mês. Foi na manhã fria de hoje, com o vento empurrando as janelas que li a triste notícia da morte de um vizinho.  Não sei o seu sobrenome, tampouco aonde estava morando atualmente. Mas bastou ler o primeiro nome para ter certeza de que se tratava dele. Após ler as circunstâncias da morte, a idade, a localidade onde foi encontrado seu corpo e os possíveis motivos do crime a angústia da dúvida deu lugar a  tristeza de saber que tudo indicava ser ele.
Esqueci o tempo que faz que não o vejo. Desconheço seus hábitos, não faço ideia de como andava sua vida, mas lembro perfeitamente seus trejeitos juvenis. Minha memória trouxe a tona nossas pequenas brigas infantis na casa de uma outra vizinha que era babá dele. Não posso esquecer seus olhos verdes e os cabelos cacheados tipo anjo barroco que caiu quebrando a asa. Nunca fomos amigos, mas havia sim uma cumplicidade a qual não sei explicar e que ocorre vira e mexe entre mim e algumas pessoas. Quando isto acontece não são necessárias palavras, apenas o olhar revela tudo. Ele exercia sobre mim um grande fascínio. O jeito rebelde, a maneira displicente ou a vida marginal faziam com que a gente discutisse. No entanto, não eram suficientes para fazer com que nos repelíssemos.
Ele adorava assustar as pessoas usando apelidos estranhos ou complementos satãnicos para nomes falsos, como Demétrius, o filho do diabo. Mas, no fundo, bem no fundo podia-se perceber que toda a violência era fruto de uma carência afetiva muito grande.
Vou tratá-lo pelo pseudônimo que adotou,  Demétrius. Ele sempre foi uma criança difícil, daqueles guris inquietos e arteiros, que fazem coisas que até mesmo o capeta duvidaria. Perdeu o pai ainda criança e não tinham uma boa relação com o padrasto, com quem chegou as vias de fato inúmeras vezes. Numa de nossas poucas conversas, percebi abaixo de seu olho direito uma cicatriz. Para um guri marcas de tombos pelo corpo são como troféus de suas peraltices. Questionei como havia ocorrido, assim como perguntei olhando em seus olhos se ele fazia uso de drogas. Pode ser que ele tenha mentido, mas me contou tranquilamente que o corte tinha sido feito com a coronha de um revólver pelo padrasto na última briga que tiveram antes que ele saísse de casa e fosse morar com a avó. A mãe ficou do lado do novo marido, afinal de contas ele era um menino problema. Neste mesmo dia ele confessou o uso de drogas. Ao contrário do que qualquer pessoa, tomada de preconceitos pelo submundo dos dependentes químicos, ele não me ofereceu para experimentar. Ficou bravo quando perguntei sobre os efeitos e o que ele, particularmente sentia. Ele não quis me contar nada a respeito, apenas argumentou que para saber como era só usando e que eu não deveria usar.  Por observá-lo sabia aonde ele escondia seus baseados e o pó. Nunca comentei com ele ou com qualquer outra pessoa.
Mesmo aparentemente não tivéssemos nada em comum Demétrius se sentiu a vontade para me mostrar seus desenhos. Segundo ele apenas um hobby. Mas seu talento era nato! Traços firmes, limpos, precisos, perfeitos! Ele tinha uma pasta cheia dos seus trabalhos, material que poderia ser usado em tatuagens e ilustrações. Neste mesmo dia ele exibiu todo-todo sua tatuagem, um dragão vermelho com detalhes verdes do lado esquerdo do peito sobre o mamilo. Desenho feito por ele, claro.
As imagens são tão nítidas na minha cabeça que chego a me perguntar: tem certeza do que escreves? Crês de verdade que a cicatriz é sob o olho direito e a tatoo do lado esquerdo? O que te dá tanta confiança, o que te faz crer que esta é a verdade. Posso usar aqui de toda a licença poética que quiser, posso inventar coisas, posso fantasiar a vontade, não serei cobrada por ninguém. Não há compromisso de contar a história com tantos detalhes e precisões, apesar de basear os contos em fatos reais. É que as imagens e lembranças vem sem esforço.
Não preciso cerrar as pálpebras para lembrar do sorriso dele. Nem de como fugia do seu olhar e evitava pousar os meus olhos nos dele, sempre protelando o beijo, que parecia já estar programado. Mesmo sabendo que uma notícia como esta mexeria comigo, jamais imaginei que seria tanto.
Demétrius teve uma vida difícil por causa do envolvimento com as drogas. Morava aqui e ali. Andava com todo o tipo de gente. Vagava perdido pois tinha família mas era da rua. Levou uma vida marginal, a margem da família, da sociedade e até de mim mesma. Não é possível compreender ou dizer o que o levou ao que. Não tem como explicar se foi a carência familiar que o levou para a dependência ou se foram as drogas que o afastaram. O que sei é que ele foi se transformando, pelo menos é o que se podia ver por fora. Seus olhos já não brilhavam mais como antes, seu corpo não era limpo, as marcas aumentavam mais e mais, eram de expressão, de brigas, de tristeza, de solidão talvez. Seu mundo se fechou de tal maneira que não havia lugar para ele fora e não cabia mais ninguém dentro.
A sua morte violenta encerrou uma vida de sofrer, mesmo sem lembrar se ele alguma vez se queixou, via nos seus olhos uma melancolia profunda e aquela cumplicidade que só conseguimos ter com quem é capaz de nos olhar nos olhos e nos ver. Não há como isentar as drogas neste caso, já que elas podem ser o motivo da morte. Tampouco se pode dizer que ele é apenas vítima das circunstâncias. Sei que ele fez as escolhas que lhe pareceram melhores. Mas sei também, que não pode existir preconceito ou acusações sobre ele, afinal, de todas as pessoas atingidas pelas suas escolhas ele foi o mais prejudicado.
Desejo de coração que ele encontre a paz, que tenha felicidade e luz nos seus caminhos. E mesmo que seja tarde, o que acredito que não é, quero admitir que gostei muito dele e sempre tive esperança de que sua vida fosse melhor. Vai em paz!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Uma prece pr'ocê

Tem lembranças que nunca se consegue esquecer, por mais remota que seja. Eu lembro bem de quando fui dar banho nos gatinhos da Lili e os matei afogados num tanque cheio de água e sabão. Sinto culpa até hoje, não foi uma coisa de caso pensado, na verdade eu nem pensei. Não queria matá-los. Só dar banho! Mas criança né? Pensei que era quem nem a mãe fazia com a roupa coloca de molho um tempo, depois torce.
Também tem uma lembrança que guardo bem quietinha na minha cabeça. Talvez meu pai nem lembre disso. E esta recordação veio a tona depois que uma médium, que me deu um passe no centro espírita, disse para convidar meu pai para fazer uma oração. Não veio como um filme, não.
Veio de forma progressiva assim...
Quando eu era criança, pelos seis ou sete anos, numa noite de inverno a minha mãe foi ficar com minha tia e minha prima Graciela no hospital. A Nêga, como a chamamos, é uma prima muito querida, seis anos mais nova do que eu. Quando criança sofreu muito com doenças respiratórias e nos períodos de frio rigoroso acabava precisando algumas vezes ser internada para nebulização. Nem faz tanto tempo assim, mas não era tão fácil as famílias terem dinheiro, cartão de crédito ou coisa parecida para comprar um nebulizador. Por isso era preciso internação hospitalar.
Numa noite destas minha mãe foi acompanhar a tia Rosa. Meus irmãos e eu ficamos com o meu pai. Então o pai veio nos explicar que a mãe "dormiria" fora porque a Graciela estava doente no hospital. Naquela época seguidamente ela estava indo para o hospital com crises respiratórias. Daí, disse pro pai que ela já tinha estado no hospital e se era grave. Foi então que ele nos convidou para rezar pedindo por ela. Quando fecho os olhos lembro daquela noite. Meus olhinhos fechados, as mãos juntinhas e o pai puxando a reza.
A fé é algo incontestável, principalmente a fé de uma criança. Nós rezamos pela Nêga, no centro espírita do meu padrinho foram feitos trabalhos e simpatias, tudo buscando que a sua saúde melhorasse. Tudo junto resultou na cura dela.
Ainda criança eu acreditava que tinha sido aquela oração junto com meu pai e meus irmãos que tinha promovido a cura. Não podemos saber, o importante é que o objetivo foi alcançado.
Desta vez, eu tenho que ficar a vontade para convidar o pai para fazer uma oração. Tenho que abrir o coração, deixar a vergonha de lado, dar a mão e em comunhão falar com Deus.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A copa da minha vida

Desde que eu me lembro, me dou por gente, eu gosto de copa do mundo!
Lembro um pouco vagamente a de 1982, confesso que misturo algumas lembranças desta com a de 1986. Mas tenho desculpa, em 82 tinha apenas cinco aninhos. Já em 1986, guardo na memória a triste lembrança do Careca saindo de campo apoiado em outros jogadores, os pênaltis perdidos por Sócrates e Zico, o galinho de ouro. Esta sim, acabou comigo e arrasou meu coraçãozinho de torcedora mirim. Na época não gostava do Casagrande, ou melhor, já não gostava. Também não era muito fã do Júnior, gostava um pouquinho do Zico, até ele perder aquele pênalti, fiquei muito de cara com ele. Mas amava de paixão mesmo era o Muller, este sim morava e mora no meu coração.
No entanto, a Copa da minha vida foi a de 1994. Foi o tetra Campeonato com Romário, Bebeto, Dunga, Cafú e todo o povo erguendo a taça do mundo "que era nossa".
O melhor de tudo era a preparação para os jogos, o quentão, as pipocas, o juntamento com os primos na casa da tia Semita, a bagunça a algazarra quando vinha o grito de gol.
Todos os jogos estavam já programados, era na casa da Preta e do Atila, com a Lili, o Marcelo, o Vinicios, a Scheila, eu e mais um povo. Depois começou a crescer a torcida e veio a Adriane, o Guto (que sempre torce contra a seleção), a Nara, o Zizo, a mãe, a tia Ieda, Tia Semita, Tio Zé e quem mais aparecesse. As vezes faltava espaço pra sentar e a gente ia para o chão. Pulávamos juntos quando o gol saía e xingávamos com palavrões quando o juiz não dava o pênalti que a gente achava que era. Deve ter sido nesta época que aprendi o que é lateral, tiro de meta e escanteio. O tal do impedimento às vezes é esquecido num cantinho do cérebro, mas eu sei.
Também deve ter sido por ali que comecei a gostar dos zagueiros, os caras fortes e bravos que fazem a defesa. Ricardo Gomes, Ricardo Rocha, Aldair. Depois veio o Lúcio, que nesta copa da África foi, sem sombra de dúvidas e, digo sem medo de errar, o melhor, eu disse, O MELHOR JOGADOR DA SELEÇÃO CONVOCADA PELO DUNGA. Aquela copa de 1994 foi sofrida hein?! Nossa decisão em pênaltis e o Taffarel para salvar nosso coração que quase saiu pela boca quando disseram que a decisão seria daquela forma.
A gente já tinha expulsado o Guto da sala porque ele só azucrinava a gente torcendo enlouquecido pela Itália, naquela final dramática. Eu e as gurias elogiávamos o belo Roberto Baggio, sem saber que mais tarde seria ele quem nos ajudaria a conquistar o tetra campeonato mundial de futebol nos Estados Unidos. Aquele placar zerado me dava uma aflição tremenda. Nem o meu ídolo Romário, nem Bebeto tinham conseguido balançar a rede e estávamos em estado total de ansiedade.
Vai que os jogadores vão para o centro do campo, decide-se qual a goleira que será usada para as cobranças e Parreira escala Aldair para bater o primeiro pênalti. O Vinícios, que joga futebol e adora, levanta do sofá e diz enfático: "vou embora zagueiro não pode bater pênalti!"
Aquela frase nunca mais saiu da minha cabeça! Mas ainda assim eu disse pra ele, "o Aldair é bom!" Ele respondeu: "mas é zagueiro!" E ele não ficou na sala, saiu para rua e ficou na frente da casa. Depois da terceira cobrança, a segunda do Brasil ele voltou. A ansiedade era gigante e foi então que a Itália já tinha perdido um pênalti, mas a angustia daquele jogo não acabar não diminuia. Vai que Baggio vai todo seguro, bonitão bater o pênalti. É só ele e o Taffarel, e o nosso goleiro é muito bom. Mas o Taffa nem precisou fazer muito esforço porque o italiano chuta bem embaixo da bola e ela sobe, sobe, sobe e vai por cima do travessão dando o título para o Brasil.
O grito de tetra invade a sala, as ruas, o Brasil. Os jogadores emocionam o país homenageando o nosso querido Airton Senna da Silva, que morreu naquele ano. Esta copa ficou na minha memória para sempre, não consigo esquecer alguns lances, comemorações e principalmente a comunhão da minha família. Nunca mais uma copa do mundo foi igual. Em 1998 foi triste, 2002 eu estava em Ijuí, terra do Dunga, 2006 lembro bem pouco, claro, a cabeçada de Zidane é inesquecível. 2010 ainda está acontecendo, agora torço pela Espanha. Mas nenhuma das copas que vieram depois de 94 mexem tnato comigo. Quem sabe 2014??? Quem sabe...