Batidas, barulhos, mesas girantes foram os primeiros fenômenos espíritas relatados. As irmãs Fox foram as primeiras médiuns a manter contato com o mundo espiritual. O contato se dava através de pancadas e batidas, que com o tempo foram transformadas em letras do alfabeto e daí a "conversa" evoluiu. Depois vieram os fenômenos das mesas girantes, também contato entre o mundo espiritual e físico, que atraiu o então professor Rivail, futuro codificador da doutrina Espírita Allan Kardec.
Tendo este breve conhecimento é natural, ou pra alguns assustadora a ideia, de que certos sons escutados em casas antigas nada mais é do que a presença de certos espíritos ali. Bem como sentir a energia dos locais.
Na casa do meu bisavô haviam manifestações deste gênero. Conta minha mãe que o vovô dela morava na avenida Domingos de Almeida, nas imediações do colégio Ginásio do Areal. A casa era daquelas construções antigas, com alicerce feito de grandes blocos de pedras. Havia porão e sótão, cheio de coisas velhas. É provável que por ali.. um dia... tenham vivido escravos.
A mãe conta que se escutava barulho de correntes pela casa. Ela conta que muitas vezes se escutava baterem palmas e chamar na frente da casa "em ponto de meio dia" e quando se ia ver quem era, não havia ninguém. Nunca se viu nenhum espírito pela casa, pelo menos que se saiba...
Hoje vou fazer mais algumas pesquisas com a família e garimpar novos causos e historinhas.
Contos de todo o tipo, historinhas da vida real, crônicas do cotidiano, contos, sonhos e desejos, todos mudando conforme as fases da lua.
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
quinta-feira, 19 de julho de 2012
"A cena mais triste que já vi!"
Ninguém jamais suspeitou que a mãe sofresse de depressão, considerada uma das doenças do século. Nenhum outro mal a afligia. Não havia doenças do coração, nem reumatismo, artrose ou esclerose comuns para a idade de 80 anos. Realizava, apesar da idade avançada, todo o trabalho da casa, sem queixas e com agilidade. Vivia tranquila com o marido numa região da colônia de Canguçu. Da casa do alto do morro podia ver a casa de uma das filhas. Viviam aparentemente felizes.
Um domingo antes de completar 80 anos chamou todos os filhos para um almoço de família em sua casa. Vieram todos, menos Laerte, que decidiu não ir porque no próximo sábado seria o aniversário da mãe e ele iria aparecer. A mãe preparou um farto almoço, com ótimas sobremesas. Todos se divertiram, conversaram e riram aproveitando toda a felicidade daquele momento em que estavam reunidos, irmão, sobrinhos, filhos, netos.
Fernando seu pai não cabia em si de tão contente por estarem juntos enchendo a casa com gargalhadas, fala alta e correria de crianças. O tempo rolou devagarinho naquele domingo de sol, quando puderam sentar na grama e sentir a brisa ao pôr do sol.
Na segunda feira nada havia mudado. A casa estava limpa, as coisas organizadas em seu lugar, Laura não era mulher de deixar arrumação pra depois. Pediu ao esposo que fosse a venda buscar alguns mantimentos e coisas para o almoço, isto eram pouco mais de oito da manhã. Mesmo tendo mais de 50 anos de casado, nunca desconfiou da intenção da esposa. Foi com seu carrinho até o armazém, alguns quilometros da casa.
Ela então preparou tudo com muito cuidado. Posicionou a cadeira, lançou a corda e apertou o laço. Colocou a corda em volta do pescoço e jogou-se no espaço com a mesma firmeza que fazia qualquer dos afazeres domésticos.
Ao voltar para casa Fernando se depara com a mulher já morta, pendurada por uma corda na sala de estar. Ainda que viva cem anos ele jamais entenderá como ela conseguiu colocar a corda tão alto, sendo de estatura baixa. Ainda que viva cem anos nunca conseguirá esquecer da visão que teve. E ainda que viva mais cem anos não saberá o porquê daquela atitude de deixar a vida.
Os vizinhos chamaram os filhos e o primeiro a chegar foi Laerte. Não haverá trauma maior para um filho do que ver a mãe enforcada.
_ Foi a cena mais triste que já vi! Entrar em casa e ver meu pai abraçado nas pernas da minha mãe morta! O pai nunca mais foi o mesmo depois daquilo! E como conseguir não é mesmo?
Quem imaginaria que um amor de infância acabaria assim?
Laura e Fernando se conheceram crianças e se gostaram. Ele prometeu que iria casar com ela, ela aceitou. Pelos doze anos foi pedir ao pai dela pra namorá-la. O velho olhou, com uma cara feia e disse que eles podiam ser amigos, mas namorar ainda estava muito cedo.
Fernando era um rapazinho sozinho na vida. Com dezesseis anos voltou a casa dela pra tentar mais uma vez o namoro. O pai dela disse que ainda estava cedo, que ele não tinha trabalho. Ele resolveu arranjar um emprego junto a um armazém.
Fernando tinha certeza de que ela seria sua mulher. Com dezoito anos ele já havia arrendado um pedaço de terra pra trabalhar. Os vizinhos davam força, o homem do armazém disse que faria um caderno pra ele e outros ofereceram dinheiro emprestado para eles casarem. Ele não quis o empréstimo. Voltou a pedir permissão para o namoro. Como ele se esforçava o pai decidiu dar uma chance, mas ele tinha que ter mais do que o que oferecia pra casar.
Não conseguia saber o que fazer pra conseguir chegar a uma condição melhor. Trabalhava de meieiro, arrendava, até que o pai da moça percebeu o quanto ele estava sozinho, o quanto ele era sozinho e deixou que ela fosse viver com ele. Mas havia a condição de casar.
O amigo da venda abriu um caderno pra vender fiado e ele seguiu pegando pesado no trabalho. Aos poucos conseguiram casar. Foram juntando dinheiro para comprar as terras que arrendavam. Conseguiram um valor grande, mas o dono da terra queria um pouco mais. Faltava uma parte. Com ajuda de um amigo, que emprestou, conseguiu completar o dinheiro. O dono das terras perguntou como ele havia conseguido o valor, ele contou, com sinceridade que a parte que faltava havia pego emprestado. O homem disse que ele devolvesse o valor para o amigo e que ele pagasse o restante quando tivesse. E foi assim que comprou suas terras, aos poucos, sempre dialogando muito com a esposa e decidindo juntos o futuro da família.
A vida foi de muito sacrifício e trabalho. E foi uma vida muito boa também! Tiveram e criaram os filhos com amor e carinho, sempre incentivando o estudo. Seu lema era "não temos nada pra deixar de herança, a herança de vocês é o estudo!". Tudo era dividido e decidido junto e ele acreditou que assim também seria na morte. Mas isto... ela decidiu solita! E ele segue solito vivendo na casa dos dois, limpando, cozinhando, arrumando a casinha com o carinho e o cuidado que lhe são peculiares. A saudade aperta sim, sufoca até. Faz parte, é o que dizem. Só seu Fernando não quer morar com nenhum filho, quer viver na sua casinha, até quando Deus quiser!
PS.: Esta história, como a maioria dos meus contos, é baseada na história real de um senhorzinho muito guerreiro e querido que conheci. Tem algumas modificações mas o cerne é verdadeiro.
Quem podia prever ou se quer pensar no mais louco dos delírios que a história de amor que começou na infância acabaria com o suicídio dela?
Um domingo antes de completar 80 anos chamou todos os filhos para um almoço de família em sua casa. Vieram todos, menos Laerte, que decidiu não ir porque no próximo sábado seria o aniversário da mãe e ele iria aparecer. A mãe preparou um farto almoço, com ótimas sobremesas. Todos se divertiram, conversaram e riram aproveitando toda a felicidade daquele momento em que estavam reunidos, irmão, sobrinhos, filhos, netos.
Fernando seu pai não cabia em si de tão contente por estarem juntos enchendo a casa com gargalhadas, fala alta e correria de crianças. O tempo rolou devagarinho naquele domingo de sol, quando puderam sentar na grama e sentir a brisa ao pôr do sol.Na segunda feira nada havia mudado. A casa estava limpa, as coisas organizadas em seu lugar, Laura não era mulher de deixar arrumação pra depois. Pediu ao esposo que fosse a venda buscar alguns mantimentos e coisas para o almoço, isto eram pouco mais de oito da manhã. Mesmo tendo mais de 50 anos de casado, nunca desconfiou da intenção da esposa. Foi com seu carrinho até o armazém, alguns quilometros da casa.
Ela então preparou tudo com muito cuidado. Posicionou a cadeira, lançou a corda e apertou o laço. Colocou a corda em volta do pescoço e jogou-se no espaço com a mesma firmeza que fazia qualquer dos afazeres domésticos.
Ao voltar para casa Fernando se depara com a mulher já morta, pendurada por uma corda na sala de estar. Ainda que viva cem anos ele jamais entenderá como ela conseguiu colocar a corda tão alto, sendo de estatura baixa. Ainda que viva cem anos nunca conseguirá esquecer da visão que teve. E ainda que viva mais cem anos não saberá o porquê daquela atitude de deixar a vida.
Os vizinhos chamaram os filhos e o primeiro a chegar foi Laerte. Não haverá trauma maior para um filho do que ver a mãe enforcada.
_ Foi a cena mais triste que já vi! Entrar em casa e ver meu pai abraçado nas pernas da minha mãe morta! O pai nunca mais foi o mesmo depois daquilo! E como conseguir não é mesmo?
Quem imaginaria que um amor de infância acabaria assim?
Laura e Fernando se conheceram crianças e se gostaram. Ele prometeu que iria casar com ela, ela aceitou. Pelos doze anos foi pedir ao pai dela pra namorá-la. O velho olhou, com uma cara feia e disse que eles podiam ser amigos, mas namorar ainda estava muito cedo.
Fernando era um rapazinho sozinho na vida. Com dezesseis anos voltou a casa dela pra tentar mais uma vez o namoro. O pai dela disse que ainda estava cedo, que ele não tinha trabalho. Ele resolveu arranjar um emprego junto a um armazém.
Fernando tinha certeza de que ela seria sua mulher. Com dezoito anos ele já havia arrendado um pedaço de terra pra trabalhar. Os vizinhos davam força, o homem do armazém disse que faria um caderno pra ele e outros ofereceram dinheiro emprestado para eles casarem. Ele não quis o empréstimo. Voltou a pedir permissão para o namoro. Como ele se esforçava o pai decidiu dar uma chance, mas ele tinha que ter mais do que o que oferecia pra casar.
Não conseguia saber o que fazer pra conseguir chegar a uma condição melhor. Trabalhava de meieiro, arrendava, até que o pai da moça percebeu o quanto ele estava sozinho, o quanto ele era sozinho e deixou que ela fosse viver com ele. Mas havia a condição de casar.
O amigo da venda abriu um caderno pra vender fiado e ele seguiu pegando pesado no trabalho. Aos poucos conseguiram casar. Foram juntando dinheiro para comprar as terras que arrendavam. Conseguiram um valor grande, mas o dono da terra queria um pouco mais. Faltava uma parte. Com ajuda de um amigo, que emprestou, conseguiu completar o dinheiro. O dono das terras perguntou como ele havia conseguido o valor, ele contou, com sinceridade que a parte que faltava havia pego emprestado. O homem disse que ele devolvesse o valor para o amigo e que ele pagasse o restante quando tivesse. E foi assim que comprou suas terras, aos poucos, sempre dialogando muito com a esposa e decidindo juntos o futuro da família.
A vida foi de muito sacrifício e trabalho. E foi uma vida muito boa também! Tiveram e criaram os filhos com amor e carinho, sempre incentivando o estudo. Seu lema era "não temos nada pra deixar de herança, a herança de vocês é o estudo!". Tudo era dividido e decidido junto e ele acreditou que assim também seria na morte. Mas isto... ela decidiu solita! E ele segue solito vivendo na casa dos dois, limpando, cozinhando, arrumando a casinha com o carinho e o cuidado que lhe são peculiares. A saudade aperta sim, sufoca até. Faz parte, é o que dizem. Só seu Fernando não quer morar com nenhum filho, quer viver na sua casinha, até quando Deus quiser!
PS.: Esta história, como a maioria dos meus contos, é baseada na história real de um senhorzinho muito guerreiro e querido que conheci. Tem algumas modificações mas o cerne é verdadeiro.
Quem podia prever ou se quer pensar no mais louco dos delírios que a história de amor que começou na infância acabaria com o suicídio dela?
quarta-feira, 4 de julho de 2012
A mulher de branco - Histórias de Fantasmas
A temida mulher de branco é uma personagem comum entre os contos de assombração pelo mundo todo. Ouvi várias histórias diferentes de mulheres assombrações. Algumas que surgiam nas estradas pedindo carona aos caminhoneiros e despediam-se na frente do cemitério.
Uma das histórias mais famosas conta que numa cidade havia uma moça muito bonita que ia nos bailes e dançava a noite toda com os rapazes. No final da noite o rapaz se oferecia pra levá-la em casa, colocava gentilmente seu casaco sobre os ombros da frágil donzela, que se despedia dele no portão da casa. Outras vezes era no portão do cemitério.
O moço muito cavalheiro deixava com ela o casaco, com o intuito "desinteressado" de reencontrar a dama encantadora. Geralmente no dia seguinte ele voltava a casa da moça com a desculpa de resgatar o casaco. Mas a surpresa algumas vezes era aterradora, a dona da casa dizia logo de saída que não havia jovem alguma vivendo ali. Vai então que ele via o retrato ou com a descrição a mulher dava-se conta de que a jovem em questão se tratava da filha falecida.
Mas uma das histórias da mulher de branco que mais escutei na vida foi a da minha tia Rosa e do meu avô. A família da minha mãe, como já contei em outras historinhas por aqui, era muito pobre. Eles vieram da colônia para a cidade morar num lugar que chamavam de "vila preta", aonde hoje se localiza a avenida República do Líbano, a Cohab dois, por ali...
Depois ofereceram pro meu vô uma casa no mato, pra cuidar do mato (aonde atualmente é o bairro Dunas). Nesta época meu avô já tinha ido lutar na Itália, do lado dos aliados contra os nazistas na segunda Guerra Mundial. Sim, ele foi pracinha e namorou umas italianinhas por lá, claro! Por causa de uns estilhaços e catarata ele acabou perdendo a visão de um olho. Conforme ele contava, o doutor meteu o dedo no olho dele arrancou e deu pro gato comer. Como podem ver, meu vôzinho era, também, um contador de histórias. E neste mato foi preciso reformar toda a casa, que parecia aquela da música, não tinha porta e nem janelas.
Bem, mas a história é de fantasma, ou melhor, da mulher de branco! Mas contei tudo isto pra vocês se localizarem, geograficamente, na história. Meu avô e minha tia Rosa, na época criança pela volta dos oito anos, acho, foram buscar lenha. A noite era de lua clara que, naqueles tempos em que não havia iluminação pública, clareava como o dia com sua luz prata. A tia Rosa conta que meu vô vinha com uma mão no ombro dela e com a outra segurava o saco de lenhas sobre a cabeça, quando de longe avistaram uma mulher vindo em sua direção, quando atravessavam o campo, próximo da caixa d'água. Ele chamou atenção da tia dizendo:
_ Lá vem a chininha, deve ter achado que demoramos demais!
Meu vô chamava a minha vó por este apelido. Seguiram caminhando, então minha tia disse que a mulher não pisava no chão, mas voava, flutuava no ar. Passou por eles falando coisas incompreensíves e tocou no ombro da tia Rosa.
Com medo ela disse:
_ Papai a mulher me tocou!
Deixa a mulher, deixa que ela vá.
Acho que meu vô conhecia a mulher de branco. Sério, a vó disse que ele contava que foi tomar água uma vez numa sanga, na colônia e quando ele encheu as mãos pra levar a boca surgiu uma mulher pedindo um gole, quando ele colocou água no quepe e ergueu o rosto pra lhe alcançar ela já havia sumido.
Todos os relatos sobre a mulher de branco narram uma moça muito bela que moreu jovem, algumas vezes por amor, outras em acidentes trágicos e noutras ainda... assassinadas por algum namorado ou amante ciumento. Algumas destas histórias fizeram parte da série histórias extraordinárias e fazem parte do imaginário, dos mitos e lendas de todas as cidades.
Uma das histórias mais famosas conta que numa cidade havia uma moça muito bonita que ia nos bailes e dançava a noite toda com os rapazes. No final da noite o rapaz se oferecia pra levá-la em casa, colocava gentilmente seu casaco sobre os ombros da frágil donzela, que se despedia dele no portão da casa. Outras vezes era no portão do cemitério.
O moço muito cavalheiro deixava com ela o casaco, com o intuito "desinteressado" de reencontrar a dama encantadora. Geralmente no dia seguinte ele voltava a casa da moça com a desculpa de resgatar o casaco. Mas a surpresa algumas vezes era aterradora, a dona da casa dizia logo de saída que não havia jovem alguma vivendo ali. Vai então que ele via o retrato ou com a descrição a mulher dava-se conta de que a jovem em questão se tratava da filha falecida.
Mas uma das histórias da mulher de branco que mais escutei na vida foi a da minha tia Rosa e do meu avô. A família da minha mãe, como já contei em outras historinhas por aqui, era muito pobre. Eles vieram da colônia para a cidade morar num lugar que chamavam de "vila preta", aonde hoje se localiza a avenida República do Líbano, a Cohab dois, por ali...
Depois ofereceram pro meu vô uma casa no mato, pra cuidar do mato (aonde atualmente é o bairro Dunas). Nesta época meu avô já tinha ido lutar na Itália, do lado dos aliados contra os nazistas na segunda Guerra Mundial. Sim, ele foi pracinha e namorou umas italianinhas por lá, claro! Por causa de uns estilhaços e catarata ele acabou perdendo a visão de um olho. Conforme ele contava, o doutor meteu o dedo no olho dele arrancou e deu pro gato comer. Como podem ver, meu vôzinho era, também, um contador de histórias. E neste mato foi preciso reformar toda a casa, que parecia aquela da música, não tinha porta e nem janelas.
Bem, mas a história é de fantasma, ou melhor, da mulher de branco! Mas contei tudo isto pra vocês se localizarem, geograficamente, na história. Meu avô e minha tia Rosa, na época criança pela volta dos oito anos, acho, foram buscar lenha. A noite era de lua clara que, naqueles tempos em que não havia iluminação pública, clareava como o dia com sua luz prata. A tia Rosa conta que meu vô vinha com uma mão no ombro dela e com a outra segurava o saco de lenhas sobre a cabeça, quando de longe avistaram uma mulher vindo em sua direção, quando atravessavam o campo, próximo da caixa d'água. Ele chamou atenção da tia dizendo:
_ Lá vem a chininha, deve ter achado que demoramos demais!
Meu vô chamava a minha vó por este apelido. Seguiram caminhando, então minha tia disse que a mulher não pisava no chão, mas voava, flutuava no ar. Passou por eles falando coisas incompreensíves e tocou no ombro da tia Rosa.
Com medo ela disse:
_ Papai a mulher me tocou!
Deixa a mulher, deixa que ela vá.
Acho que meu vô conhecia a mulher de branco. Sério, a vó disse que ele contava que foi tomar água uma vez numa sanga, na colônia e quando ele encheu as mãos pra levar a boca surgiu uma mulher pedindo um gole, quando ele colocou água no quepe e ergueu o rosto pra lhe alcançar ela já havia sumido.
Todos os relatos sobre a mulher de branco narram uma moça muito bela que moreu jovem, algumas vezes por amor, outras em acidentes trágicos e noutras ainda... assassinadas por algum namorado ou amante ciumento. Algumas destas histórias fizeram parte da série histórias extraordinárias e fazem parte do imaginário, dos mitos e lendas de todas as cidades.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Apenas uma lágrima!
É difícil viver um período de luto!
Hoje, antes do almoço conversava com minha mãe e lembrei do dia em que minha bisavó faleceu. Lembro da sensação que tive no momento em que escutei meu pai dizer a frase e a sensação avassaladora que me invadiu. Pensei na minha mãe, na minha vó. Pensei no desejo que minha bisavó tinha de morrer depois da sua filha Edite! Lembrei que o pedido atendido.
Minha mãe disse que a vó Mila se foi assim como uma vela que apaga. Ela deu um bocejo e foi-se. Sem dor, sem sofrimento! E lembrando disso nós duas não conseguimos conter as lágrimas de saudade!
A mãe disse que foi muito difícil aceitar a perda da vó Mila. Que ela não entendia como tudo podia continuar igual se ela não estava mais aqui. Como o sol ainda brilhava, como tudo corria normal?
Minha bisa era uma pessoa muito especial! Sua maneira de ser, seu carinho e o exemplo me dão grande orgulho. Lembro dela com uma nitidez muito grande. Todos os dias íamos na casa da vó Mália e quando dobrávamos a esquina podíamos ver a vó Mila encostada ao muro na frente da casa. E durante muito tempo depois de ela ter ido a visão dela apoiando o rosto na mão escorada no muro antecedia a visão do muro branco vazio, solitário...
Mas o luto é importante dizem os psicólogos e eu concordo. Precisamos deste tempo para lembrar e chorar por aquelas pessoas (ou situações) que sempre estarão em nossos corações. Dedicamos nossas lágrimas, algumas orações e pensamentos a estes entes que partiram, ou simplesmente nos despedimos da situação que, mesmo não tendo sido positiva, por exemplo, representa um aprendizado, um crescimento. Nunca estamos preparados para encarar o luto. Nascemos sabendo que um dia iremos embora, deixaremos pessoas queridas e outras nos deixarão, mas nunca estamos preparados. Sempre acharemos que foi cedo demais!
Embora o título deste texto seja "apenas uma lágrima" não sou capaz de cumprir a sentença. Jamais consegui controlar as glândulas lacrimais e quando a emoção bate as lágrimas vem em enxurrada banhando meu rosto. No único auto retrato que fiz na vida, sem talento nenhum, estou chorando! Hoje, agora pouco, a noite, estava com o peito apertado (e não era o sutiã!). Cheguei a pensar... vou derramar apenas uma lágrima, vou deixá-la rolar pela face e saltar da ponta do queixo no meu peito diluindo todo este furacão de sentimentos,assim como uma chuva mansa que ajuda a germinar novas sementes. Quisera tivesse conseguido deixar rolar apenas uma lágrima! Quisera eu que uma única lágrima caísse e tudo se acalmasse!
Eu quis...
Hoje, antes do almoço conversava com minha mãe e lembrei do dia em que minha bisavó faleceu. Lembro da sensação que tive no momento em que escutei meu pai dizer a frase e a sensação avassaladora que me invadiu. Pensei na minha mãe, na minha vó. Pensei no desejo que minha bisavó tinha de morrer depois da sua filha Edite! Lembrei que o pedido atendido.
Minha mãe disse que a vó Mila se foi assim como uma vela que apaga. Ela deu um bocejo e foi-se. Sem dor, sem sofrimento! E lembrando disso nós duas não conseguimos conter as lágrimas de saudade!
A mãe disse que foi muito difícil aceitar a perda da vó Mila. Que ela não entendia como tudo podia continuar igual se ela não estava mais aqui. Como o sol ainda brilhava, como tudo corria normal?
Minha bisa era uma pessoa muito especial! Sua maneira de ser, seu carinho e o exemplo me dão grande orgulho. Lembro dela com uma nitidez muito grande. Todos os dias íamos na casa da vó Mália e quando dobrávamos a esquina podíamos ver a vó Mila encostada ao muro na frente da casa. E durante muito tempo depois de ela ter ido a visão dela apoiando o rosto na mão escorada no muro antecedia a visão do muro branco vazio, solitário...
Mas o luto é importante dizem os psicólogos e eu concordo. Precisamos deste tempo para lembrar e chorar por aquelas pessoas (ou situações) que sempre estarão em nossos corações. Dedicamos nossas lágrimas, algumas orações e pensamentos a estes entes que partiram, ou simplesmente nos despedimos da situação que, mesmo não tendo sido positiva, por exemplo, representa um aprendizado, um crescimento. Nunca estamos preparados para encarar o luto. Nascemos sabendo que um dia iremos embora, deixaremos pessoas queridas e outras nos deixarão, mas nunca estamos preparados. Sempre acharemos que foi cedo demais!
Embora o título deste texto seja "apenas uma lágrima" não sou capaz de cumprir a sentença. Jamais consegui controlar as glândulas lacrimais e quando a emoção bate as lágrimas vem em enxurrada banhando meu rosto. No único auto retrato que fiz na vida, sem talento nenhum, estou chorando! Hoje, agora pouco, a noite, estava com o peito apertado (e não era o sutiã!). Cheguei a pensar... vou derramar apenas uma lágrima, vou deixá-la rolar pela face e saltar da ponta do queixo no meu peito diluindo todo este furacão de sentimentos,assim como uma chuva mansa que ajuda a germinar novas sementes. Quisera tivesse conseguido deixar rolar apenas uma lágrima! Quisera eu que uma única lágrima caísse e tudo se acalmasse!
Eu quis...
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Oi, posso falar da minha vida?
A noite se fazia presente com o brilho suave da lua e a penumbra encobrindo rostos distantes. Os passos eram apressados para chegar a tempo ao mercado. Em meio a tantas faces desconhecidas encobertas pela sombra da noite um sorriso lhe pareceu familiar, talvez apenas simpático, quem sabe acolhedor...
O homem postou-se diante dela com o sorriso aberto, que apenas se desfez quando ele, cordialmente a cumprimentou.
_ Oi, como vai?
Rapidamente passou em sua mente o terrível medo dos desmemoriados, será que o conheço e não estou lembrando quem seja? Então responde timidamente, quase num sussurro. De tão grande a vergonha de não ter reconhecido o cidadão ela nem percebe que o homem se embala, como uma bailarina de caixa de música cujo imã está mal posicionado.
_Oi, vou bem e tu?
Esta era a deixa de que ele precisava para, ao mesmo tempo em que se embala para cá e para lá, soltar a questão:
_ Posso te falar da minha vida?
Neste momento ela percebe os passos do homem, dois pra lá, dois pra cá como na música da Elis.
Ela olha para o relógio e para o portão do mercado ainda aberto e vê que há pouco tempo para fazer suas compras. O homem segue embalando-se tal qual marinheiro que ainda não acostumou-se em terra e preserva em seu corpo o vai e vem das ondas do mar.
_Desculpe-me amigo, mas não poderei ouví-lo agora. Ao dizer isto segue em direção ao supermercado, deixando-o para trás.
Dias passaram-se e ela lembrava daquela pessoa, talvez um Forrest Gump da vida, alguém tão solitário e tão angustiado em si mesmo que sua companhia de todas as horas, a bebida não lhe bastava mais, era preciso conversar com outra pessoa, escutar uma voz diferente da sua e dos seus pensamentos. Era impossível não criar várias histórias, dar um nome tendo uma imaginação tão fértil como a dela. Seria mesmo aquele cara um morador de rua? As evidências não diziam isto! Suas roupas eram limpas, os calçados surrados por muitas caminhadas, os dentes eram brancos e a bolsa nas mãos parecia com aquelas frasqueiras que os jogadores usam para levar uniforme e chuteiras. Com certeza não era um morador de rua!
Não foram descartadas as ideias de tratar-se de um paciente psiquiátrico em busca da reintegração a sociedade. Tantas vezes viu pessoas que buscavam o carinho alheio para suprir a desatenção da família. Embora quisesse esquecer daquela pessoa aparentemente tão frágil a culpa de não ter dado atenção a ela fazia-lhe lembrar da pessoa. E se aquele momento fosse o último desabafo de um suicida, de alguém desesperado por uma palavra de conforto ou um olhar de compaixão?
Por várias vezes observou as pessoas no vai-e-vem das ruas na tentativa de encontrar o homem contando de sua vida a outras pessoas. Chegou a cogitar que aquele encontro havia sido fruto da sua imaginação. Vai saber tinha sonhado aquilo tudo, inclusive suas suposições.
Foi quando, numa noite fria de agosto, enquanto passava de ônibus pode ver o mesmo sujeito, com seu sorriso cativante na sua dança de bêbado a conversar com uma senhora. Outra vez não seria possível ouvir as histórias daquele homem, mas saber que ele não se tratava de um suicida foi tranquilizante. As ideias mirabolantes seguiram povoando sua mente até que um dia pudesse se deparar com aquele bailarino da caninha, com tempo para saber, afinal de contas, o que ele tem para falar da sua vida.
Foto: Google imagens
O homem postou-se diante dela com o sorriso aberto, que apenas se desfez quando ele, cordialmente a cumprimentou.
_ Oi, como vai?
Rapidamente passou em sua mente o terrível medo dos desmemoriados, será que o conheço e não estou lembrando quem seja? Então responde timidamente, quase num sussurro. De tão grande a vergonha de não ter reconhecido o cidadão ela nem percebe que o homem se embala, como uma bailarina de caixa de música cujo imã está mal posicionado.
_Oi, vou bem e tu?
Esta era a deixa de que ele precisava para, ao mesmo tempo em que se embala para cá e para lá, soltar a questão:
_ Posso te falar da minha vida?
Neste momento ela percebe os passos do homem, dois pra lá, dois pra cá como na música da Elis.
Ela olha para o relógio e para o portão do mercado ainda aberto e vê que há pouco tempo para fazer suas compras. O homem segue embalando-se tal qual marinheiro que ainda não acostumou-se em terra e preserva em seu corpo o vai e vem das ondas do mar.
_Desculpe-me amigo, mas não poderei ouví-lo agora. Ao dizer isto segue em direção ao supermercado, deixando-o para trás.
Dias passaram-se e ela lembrava daquela pessoa, talvez um Forrest Gump da vida, alguém tão solitário e tão angustiado em si mesmo que sua companhia de todas as horas, a bebida não lhe bastava mais, era preciso conversar com outra pessoa, escutar uma voz diferente da sua e dos seus pensamentos. Era impossível não criar várias histórias, dar um nome tendo uma imaginação tão fértil como a dela. Seria mesmo aquele cara um morador de rua? As evidências não diziam isto! Suas roupas eram limpas, os calçados surrados por muitas caminhadas, os dentes eram brancos e a bolsa nas mãos parecia com aquelas frasqueiras que os jogadores usam para levar uniforme e chuteiras. Com certeza não era um morador de rua!
Não foram descartadas as ideias de tratar-se de um paciente psiquiátrico em busca da reintegração a sociedade. Tantas vezes viu pessoas que buscavam o carinho alheio para suprir a desatenção da família. Embora quisesse esquecer daquela pessoa aparentemente tão frágil a culpa de não ter dado atenção a ela fazia-lhe lembrar da pessoa. E se aquele momento fosse o último desabafo de um suicida, de alguém desesperado por uma palavra de conforto ou um olhar de compaixão?
Por várias vezes observou as pessoas no vai-e-vem das ruas na tentativa de encontrar o homem contando de sua vida a outras pessoas. Chegou a cogitar que aquele encontro havia sido fruto da sua imaginação. Vai saber tinha sonhado aquilo tudo, inclusive suas suposições.
Foi quando, numa noite fria de agosto, enquanto passava de ônibus pode ver o mesmo sujeito, com seu sorriso cativante na sua dança de bêbado a conversar com uma senhora. Outra vez não seria possível ouvir as histórias daquele homem, mas saber que ele não se tratava de um suicida foi tranquilizante. As ideias mirabolantes seguiram povoando sua mente até que um dia pudesse se deparar com aquele bailarino da caninha, com tempo para saber, afinal de contas, o que ele tem para falar da sua vida.
Foto: Google imagens
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