sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O pé, o prego e a cebola

Existem simpatias e "tratamentos médicos caseiros" que muitas vezes não entendemos, mas que são realizados pelos adultos quando somos crianças e que ficam guardados na nossa memória para sempre. Destes "tratamentos" lembro muito nitidamente de dois.
O primeiro ocorria sempre que uma criança ao cair batia com a cabeça. Este consistia em pressionar o "galo" com uma faca. Calma, pressionar com o lado da faca, em cruz. Do contrário não funcionava. Algumas pessoas diziam umas palavras sussurradas e que não conseguíamos compreender porque estávamos chorando muito alto por termos caído. Cabe explicar que o dito "galo" era o inchaço que levantava no local em que havíamos batido, ficava um pouco arroxeado depois de algum tempo.
Esta simpatia de amassar o "galo" com a faca aconteceu poucas vezes comigo, pois sempre que eu caia o que eu machucava eram os joelhos. Tanto que muitos anos atrás, já adulta, caí um grande tombo quando morava em Ijuí. O resultado disso foi uma luxação, estraguei o joelho e até hoje ele dói vez por outra, sem contar os dias de chuva.
O segundo "tratamento" visava evitar que a criança, imagino eu, adoecesse de tétano. Acontecia geralmente quando a gurizada pisava num prego ou outro objeto de metal. Neste caso então, a mãe, o pai, ou o adulto que cuidava passava um pedaço de cebola no local machucado e depois enfiava a cebola no prego. Ficava-se observando o machucado e o apodrecer do prego, que praticamente se desmanchava com a cebola.
Eu me lembro bem de como aconteceu comigo. Quando meu pai e minha mãe foram morar juntos eles tinham um chalé. Eram duas peças que com a minha chegada e de meus irmãos depois precisou ser ampliada. Eu devia ter uns cinco anos, por aí... Já tínhamos a cozinha, o banheiro e dois quartos de alvenaria nos fundos do chalé. Foi então que o pai desmanchou a parte de madeira para construir a sala no mesmo espaço. Durante algum tempo as madeiras ficaram ali na frente perto da cozinha. A mãe sempre dizia para não andar lá por que tinha prego nas tábuas e eu podia me machucar. Dito e feito! A teimosa foi lá, andar no meio das tábuas do chalé, olhar aqueles pedaços de madeira onde via imagens de bichos e coisas nos nós da madeira, (eu sempre fui assim, vejo imagem nas nuvens, nas sombras, em nós de madeira, em folhas retorcidas, em desenhos abstratos). Alguns minutos depois, estava com um prego enfiado no pé. Não lembro como as coisas aconteceram. Lembro apenas da dor, do prego no pé, da tábua dependurada e da mãe me salvando. Ah! Também lembro de mim dizendo pra ela que tinha estragado meu chinelo de dedo. Aí, então a mãe puxou a tábua bem rapidinho pra eu não sentir dor, olhou o ferimento e disse que tinha que passar uma cebola. Eu não entendi, mas minha mãe sempre tinha razão. E ainda hoje tem.
Pegou meia cebola, passou a cebola no pé, me deixou sentadinha numa cadeira foi lá e enfiou a metade da cebola no prego sem dó nem piedade. Realmente não lembro se teve curativo com mertiolate ou iodo, que era horrível porque ardia muito. Uns dias depois fui andar novamente lá no meio dos entulhos do chalé para ver como estava o prego e ele estava todo torto, apodrecido.
Meu pé esquerdo tem um calo que me incomoda bastante, ainda hoje. Mas de tudo ficou a lembrança de minha mãezinha me salvando daquele monte de tábuas e pregos enferrujados, da eficiência da cebola e da fragilidade do prego que ajuda a construir uma casa, mas se desmancha por uma cebola. Claro que minhas vacinas estavam sempre em dia.

Ps.: Tem uma música do Cesar Oliveira e do Rogério Melo que diz "saudade é prego na bota".

Um comentário:

Silvia Silva disse...

Nao acredito nessas coisas místicas, simpatias, etc... Mas quando furei o pé, também colocaram cebola no prego kkk
*Deus nao precisa de rituais pra nos curar*