quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Primeiro beijo


Na época da minha adolescência eu tinha uma amiga praticamente inseparável. Éramos assim como gêmeas siamesas, sabe? Vivíamos coladas uma na outra, ela na minha casa, eu na casa dela. A gente morava perto uma da outra e nossa prática preferida, depois das visitas, era acompanhar a outra até a esquina. Isto era demais, porque eu ia com ela até a esquina da casa dela, umas sete quadras da minha, depois ela voltava comigo até a minha esquina. E assim ficávamos até começar a escurecer, conversando na rua e caminhando pra lá e pra cá.
A Ana Paula, minha amiga, cumadre, companheira esteve presente em muitos momentos da minha vida e eu na dela. Nossas manhãs de sábado eram no calçadão, pegávamos o ônibus, muitas vezes escondido do pai dela, que era muito bravo, e íamos passear ou ficar ouvindo música na porta do Trekos.
A Trekos (loja de discos) existe até hoje aqui em Pelotas e daquele tempo o único funcionário que continua lá é o Gilmar. A gente, é claro, conhecia todos, paquerava uns, brigava com outros (hahaha) e continuava lá, na loja, ouvindo música e vendo quem passava.
Foi num destes sábados longínquos que dei meu primeiro beijo. Devia ter uns treze ou catorze anos. Não foi uma coisa magnífica, mas como se diz o primeiro a gente nunca esquece.
A Ana e eu estávamos lá vendo o pessoal que passava, reconhecendo alguns rostos que como nós também estava sempre por ali. Então o Iran passou, ficou olhando, daí um pouco voltou, puxou assunto e me convidou para dar uma volta. Fomos caminhando em direção a Praça Coronel Pedro Osório. Na época a praça era mal vista devido as moças que ganham a vida por ali. Hoje não é diferente, as moças continuam lá. No entanto, eu mudei minha maneira de ver a praça e não a considero mais um local proibido, mas um espaço para todos. Foi lá, na frente desta estátua que aparece aí na foto, que dei meu primeiro e desajeitado beijo.
Aquela ânsia que fazia querer e não querer o beijo, aquela aflição de como contar pra mãe, enfim. A Ana sempre dizia pra minha mãe quando saíamos, "não te preocupa Rita, tá comigo, tá com Deus". E eu com medo de como seria o beijo, foi uma coisa muito rápida, muito estranha e bem molhada. Talvez o fato de não ter sido com alguém de quem gostasse tenha contribuído para ser assim. Enfim.
Naquele dia eu beijei. Depois voltei com o Iran para encontrar a Ana e convenci o seu Nei, pai dela, para que ela dormisse lá em casa. Não que eu tivesse medo de contar pra minha mãe que tinha beijado. Sabia que ela não brigaria comigo ou coisa assim, mas sei lá né, na adolescência tudo parece um soooonho... ou um drrrrrama.
Então ela foi dormir lá. Eu contei para a minha mãe minha mais nova experiência e como tinha sido estranho e diferente do que eu pensava. Lembro bem. Minha mãe disse que era assim mesmo e que no dia que eu gostasse de alguém de verdade o beijo seria diferente. É claro que ela estava certa, como sempre. Daí ela olhou pra Ana e perguntou, "tá comigo, tá com Deus é?". E a Ana respondeu: "Ele dormiu um pouquinho, mas não foi nada grave".
Na segunda feira uma colega mexeu comigo dizendo que eu estava namorando na praça. Fiquei louca de vergonha!
No sábado seguinte estávamos lá, no mesmo lugar, a Ana e eu, daí apresentei o Iran para minha prima Lili. Ele também pediu um beijo pra ela lá na praça Coronel Pedro Osório. E eu pensei, ainda bem que eu não era apaixonada por ele, se não seria uma desilusão. Mas como disse, na adolescência tudo é sonho ou drama e nesta época meu sonho atendia pelo nome de Nill, cantor do Dominó Não tinha espaço pra mais ninguém, mesmo que este ninguém fosse de carne e osso e o Nill de sonho.

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